Esse filme de 2019, dirigido por Chiwetel Ejiofor, é basicamente a história real de William Kamkwamba, um garoto malawi que construiu um moinho de vento para salvar sua vila da seca. É adaptation livre do livro memoir dele, então tem licença criativa pra cima e pra baixo com os fatos. Eu vi ele pela primeira vez num cinema pequeno em São Paulo, era uma sessão quase vazia no meio da tarde. Fiquei.
Resenha do filme o menino que descobriu o vento
O que funciona mesmo é o ritmo. Cinquenta e poucos minutos em Malawi, anos 1990, sem muita explicação contextual. O filme te joga direto na lama e te espera acompanhar. Mark Attele, que faz William, entrega uma performance que não pede piedade — ele quase não fala inglês fluentemente ali, e isso é proposital, não um defeito de produção.
A trilha de Marcelo Zarvos ajuda bastante, mas não domina. Tem cena onde o som do vento no moinho substitui a música inteira e funciona melhor do que qualquer orquestra. O problema é que o segundo ato escorrega um pouco quando entra na questão da política local e das tensões com a comunidade. O filme queria ser tudo ao mesmo tempo e às vezes perde o foco.
O que o filme acerta
Mostrar que engenharia não é só coisa de laboratório. William vai até uma biblioteca, encontra livros velhos de física com ilustrações, e a partir daí monta uma estrutura de pneus, madeira e placas solares caseiras. A cena dele testando o moinho pela primeira vez, com a água literalmente subindo aos poucos, é dessas que ficam. Não tem música triunfante. Só o som da coisa funcionando.
A relação com o pai também é interessante de observar. Trasha Kamkwamba, interpretado pelo próprio Ejiofor em seu trabalho diretor, não é vilão. Ele acredita que o filho tá perdendo tempo, sim, mas isso vem de um lugar real de quem vê educação formal como única saída num contexto onde o sistema público praticamente não existe.
Pontos fracos que incomodam
O filme tem aquele vício americano de transformar um problema estrutural complexo numa jornada individual de superação. Claro que a iniciativa de um garoto é admirável. Mas a fome em Malawi nos anos 90 não se resolve com um moinho caseiro. O documentário original mostra isso com mais honestidade. O filme de ficção precisa de arco dramático, então ele converte uma crise sistêmica numa história de um garoto contra as adversidades. Funciona no cinema, mas deixa um gosto amargo se você conhece o contexto.
Outro ponto: a romântica com a prima Adele (aquele nome é invenção do roteiro, a personagem real se chamava diferente) é dispensável. Você percebe exatamente onde ela entra pra dar aquele momento de leveza entre tanta dificuldade. É mecânico, mas não estraga nada.
Contexto real que o filme omite
William Kamkwamba hoje é engenheiro, tem mestrado em Oxford, e fundou a Kamkwamba Foundation. O moinho dele foi o primeiro de muitos que surgiram na região. O filme mostra isso rapidinho nos créditos finais, mas poderia ter dedicado pelo menos mais cinco minutos pra isso. A gente fica com a impressão de que a história acaba quando ele conquista o pai. Na vida real, foi só o começo.
Se você quer a versão mais crua e documentada, o documentário da BBC de 2009 sobre William é mais informativo. Se quer emoção e uma boa atuação juvenil, o filme de 2019 cumpre o papel.
Disponibilidade
O filme foi distribuído pela Netflix nos primeiros anos de plataforma, mas a disponibilidade varia por região e muda com o tempo. Em junho de 2024 ainda aparecia no catálogo brasileiro. Vale conferir diretamente na serviço antes de qualquer coisa. Fora isso, existem opções de aluguel digital nas principais plataformas.
Se você curte filmes biográficos que não tratam o público como alguém que precisa de tudo explicado, esse é uma boa escolha. Não é perfeito. Mas é honesto na maior parte do tempo.
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