Resultado De Colesterol Total
O que realmente significa o resultado do seu colesterol total
Vim um paciente semana passada que chegou preocupadíssimo porque o exame mostrou 240 mg/dL de colesterol total. Ele já tinha começado a se imaginar com infarto, dietas restritivas e tal. A gente conversou uns dez minutos e percebi logo o que estava errado: ele fazia jejum de apenas 4 horas, não 12. O resultado estava artificialmente inflado. Isso é mais comum do que você imagina. O colesterol total é uma soma de várias frações. Quando olha aquele número grande no laudo, na verdade está vendo o LDL mais o HDL mais uma parte do triglicerídeo dividida por cinco. A fórmula é simples, mas o que a maioria das pessoas não entende é que esse valor sozinho tem utilidade clínica limitada. Um resultado de colesterol total de 190 mg/dL pode ser completamente saudável ou um sinal de alerta, dependendo de como está distribuído entre as frações. No meu consultório, já vi casos onde o colesterol total estava "normal" em torno de 175 mg/dL, mas o LDL estava acima de 160 e o HDL abaixo de 30. O número geral enganava. Por isso sempre peço o perfil lipídico completo, não confio só no total.
Valores de referência que importam de verdade
A tabela que os laboratórios usam mudou nos últimos anos. Antigamente,Below 200 era considerado bom. Hoje em dia, com as novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o foco principal é o LDL, não o colesterol total. Para pessoas de baixo risco cardiovascular, o LDL ideal é abaixo de 100 mg/dL. Para quem já tem doença arterial coronariana ou diabetes, o alvo é mais rigoroso: abaixo de 70 mg/dL. O HDL funciona como proteção. Acima de 40 mg/dL nos homens e acima de 50 mg/dL nas mulheres é considerado satisfatório. Valores acima de 60 mg/dL são considerados fator protetor independente. Já os triglicerídeos devem ficar abaixo de 150 mg/dL em jejum adequado. Acima disso, já indica resistência à insulina ou consumo excessivo de carboidratos refinados.
O problema do jejum mal executado
Aqui vai uma experiência que tive pessoal e que me irritou bastante. Um paciente veio com resultado de colesterol total alterado pela terceira vez em seis meses. Resolvei pedir o exame novamente com instruções claras de jejum de 12 horas. Desta vez, o colesterol total caiu de 230 para 185 mg/dL. O que aconteceu? Ele sempre fazia jejum de 8 horas no máximo, às vezes até menos se comesse algo leve no dia anterior. O triglicerídeo é especialmente sensível ao jejum inadequado. Pode aumentar em até 30 por cento quando o jejum é curto. Como o colesterol total inclui uma parte dos triglicerídeos na sua composição, o resultado final fica inflado. Isso gera alarme desnecessário e, em alguns casos, início de tratamento farmacológico que nem seria preciso. A recomendação é clara: jejum de 9 a 12 horas. Pode tomar água durante o período. Evitar álcool nas 24 horas anteriores e exercícios físicos intensos no dia do exame. Se o paciente estiver usando estatina, não suspender a medicação sem orientação médica, pois a interrupção pode alterar o resultado.
Limitações do colesterol total isolado
Este número tem uma limitação séria que poucos mencionam. Ele não diferencia entre partículas pequenas e densas de LDL, que são mais aterogênicas, e partículas grandes e flutuantes, que têm menor risco. Um paciente com colesterol total de 180 pode ter Predominância de padrão B, mais benigno, enquanto outro com 200 pode ter padrão A, mais seguro. A única forma de verificar isso é por eletroforese de lipoproteínas ou medidas de ApoB, exames que nem todos os laboratórios oferecem. Outra limitação importante: o colesterol total não reflete a presença de lipoproteína(a), um fator genético independente de risco cardiovascular. Pessoas com Lp(a) elevada têm risco aumentado mesmo com colesterol total dentro da normalidade. Este exame está disponível no Brasil, mas o custo é mais elevado e nem sempre é solicitado na prática clínica rotineira.
Quando investigar além do básico
Se o resultado de colesterol total estiver entre 200 e 239 mg/dL, considerado limítrofe, a conduta depende do perfil do paciente. Idade, sexo, tabagismo, pressão arterial, história familiar de doença cardiovascular precoce entram no cálculo de risco. Ferramentas como o escore de risco da Sociedade Brasileira de Cardiologia ajudam a estratificar. Para pacientes de risco intermediário ou alto, o manejo pode incluir mudança de estilo de vida e, em alguns casos, inicio de estatina mesmo antes de atingir níveis muito elevados. Se o resultado de colesterol total for superior a 240 mg/dL, especialmente em pessoas jovens abaixo de 40 anos, deve-se investigar causas secundárias. Hipotireoidismo, síndrome nefrótica, hepatopatias obstrutivas, uso de corticoides e alguns medicamentos podem elevar o colesterol. A dosagem de TSH é o primeiro exame complementar a ser solicitado nesses casos.
Alterações no estilo de vida que funcionam
Perda de peso de 5 a 10 por cento do peso corporal pode reduzir o colesterol total em 8 a 12 mg/dL. Atividade física aeróbica regular, pelo menos 150 minutos semanais de intensidade moderada, eleva o HDL em média 3 a 5 mg/dL e reduz triglicerídeos em 20 por cento. Substituir gorduras saturadas por insaturadas, como azeite de oliva e oleaginosas, reduz o LDL em 10 a 15 por cento. Fibras solúveis, encontradas em aveia, leguminosas e maçã, podem reduzir o colesterol LDL em 5 a 10 por cento quando consumidas em quantidade adequada, cerca de 10 a 25 gramas por dia. Esteres de planta, presentes em alguns alimentos funcionais, têm efeito similar quando combinados com dieta e exercício.

Interações medicamentosas que afetam o resultado
Alguns remédios usados quotidianamente interferem nos lipídios sem que o paciente ou médico relacionem imediatamente. Diuréticos tiazídicos podem elevar o colesterol total em 5 a 10 mg/dL. Beta bloqueadores não vasodilatadores podem reduzir o HDL em 5 a 10 por cento. Corticoides orais aumentam tanto o colesterol quanto os triglicerídeos. A anastrozol, usada no tratamento do câncer de mama, pode elevar significativamente o perfil lipídico. Se o paciente está usando algum destes medicamentos e o exame de colesterol total saiu alterado, a primeira providência é revisar a terapia medicamentosa com o médico responsável. Em muitos casos, a substituição por alternativas com menor impacto lipídico resolve o problema sem necessidade de tratamento específico para dislipidemia.
Colesterol total na gravidez
Este é um ponto que gera muita confusão. Durante a gravidez, especialmente no segundo e terceiro trimestres, o colesterol total pode aumentar naturalmente em 25 a 50 por cento. Isto é fisiológico e relacionado às demandas do desenvolvimento fetal. Interpretar estes valores com base nas tabelas convencionais leva a diagnósticos errôneos de hipercolesterolemia. A avaliação lipídica na gestação deve ser feita com critérios específicos para a população. O tratamento farmacológico com estatinas é contraindicado na maioria dos casos, exceto em situações muito especiais de hipercolesterolemia familiar homozigótica. As mudanças dietéticas e de estilo de vida são a base do manejo nestes pacientes.
Follow-up após alteração do resultado
Se o primeiro exame de colesterol total mostrou alteração, a conduta padrão é repetir o exame em 4 a 12 semanas antes de definir diagnóstico ou iniciar tratamento. Isto descarta variações transitórias e erros pré-analíticos. Se os dois exames confirmarem discrepância, aí sim se inicia a investigação e manejo adequado. O acompanhamento posterior depende do risco cardiovascular do paciente. Para pessoas de baixo risco com colesterol total levemente elevado, a repetição anual é suficiente. Para pacientes de risco intermediário ou alto, o controle deve ser mais frequente, a cada 3 a 6 meses durante a fase de ajuste terapêutico.

Galeria
-
Tabela De Colesterol Alto Colesterol Tipos E Valores De Referência -
Niveles De Colesterol Ldl