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Saindo Pus Do Ouvido

Saindo Pus Do Ouvido

O que acontece quando tem secreção saindo do ouvido

Ao notar secreção saindo do ouvido, a primeira coisa que precisa entender é que isso não é um diagnóstico. É um sintoma. E o sintoma pode vir de pelo menos meia dúzia de causas diferentes, algumas triviais e outras que precisam de atenção médica imediata. Eu já vi gente tentando tratar isso com conta-gotas caseiros, álcool, e até tentando aspirar com cotonete — e em um dos casos, isso levou a uma otite externa necrosante em um paciente diabético que deveria ter ido ao médico dias antes. Pus no ouvido vem geralmente de duas origens principais: infecção no ouvido médio (otite média aguda com perfuração do tímpano) ou infecção no canal auditivo externo (otite externa). A diferença entre elas é crucial porque o tratamento é completamente diferente. Na otite média com perfuração, o pus é mais espesso, de coloração amarelada esbranquiçada, e costuma aparecer de forma súbita após dias de dor de ouvido, febre e sensação de ouvido tampado. O paciente frequentemente relata alívio imediato da dor no momento em que o pus começa a sair, porque a pressão intratimpânica foi aliviada. Já na otite externa, a secreção tende a ser mais liquida, às vezes avermelhada se houver sangramento associado, e a dor aumenta ao puxar o pavilhão auditivo ou pressionar o trago.

Tem também a cerumens impaction com sobreinfecção, que gera secreção escura e fétida, e a colesteatoma, que produz secreção brancacenta com cheiro extremamente desagradável. Colesteatoma é uma condição cirúrgica — não trata com antibiótico só.

Primeiros passos práticos quando aparece secreção

Não introduza nada no canal auditivo. Cotonete, pinça, conta-gotas caseiros, água oxigenada, álcool — tudo isso pode empurrar a infecção para mais fundo, danificar o tímpano já fragilizado ou causar perfuração. Eu vi um caso em que um paciente fez irrigação com água morna achando que era cera acumulada e terminou com vertigem severa e perda auditiva súbita por entrada de líquido no ouvido médio através de uma microperfuração. O que você deve fazer: coloque um algodão solto na entrada do pavilhão para absorver a secreção que sai naturalmente. Troque sempre que estiver molhado. Não espete. Se a dor for intensa, anti-inflamatórios como ibuprofeno 400mg podem ajudar no controle sintomático enquanto você agenda uma consulta. Analgésicos comuns como paracetamol também funcionam, mas não tratam a inflamação de base. Se houver febre acima de 38,5 graus, dor que não melhora com analgésico, inchaço atrás da orelha, vertigem, perda auditiva significativa ou paralisia facial — vá a um pronto-socorro. Esses são sinais de complicação que não esperam consulta eletiva.

Otite: Entenda a Inflamação do Ouvido, Seus Tipos e Tratamentos - Dra ...
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Diagnóstico e tratamento: o que o médico vai fazer

O otorrino vai fazer uma otoscopia para visualizar o canal e o tímpano. Se houver muita secreção, ele faz microaspiração com equipamento adequado antes de qualquer avaliação — tentar examinar com o canal preenchido é como tentar ler algo com a lente embaçada. Depois da limpeza, ele consegue ver se o tímpano está íntegro, perfurado, retraído, ou se há presença de massa tissular (sugestão de colesteatoma). Na otite média aguda com perfuração, o tratamento padrão envolve antibiótico sistêmico — amoxicilina 1g de 8 em 8 horas por 7 a 10 dias é a primeira linha para adultos sem alergia. Em casos mais graves ou com resistência, amoxicilina-clavulanato 875/125mg de 12 em 12 horas. Gotas auriculares com antibiótico só são usadas se o médico confirmar que o tímpano está perfurado e prescrever formulações seguras para uso intratimpânico — algumas gotas comuns contêm gentamicina e são ototóxicas se passarem para o ouvido médio. Já na otite externa, o tratamento é quase sempre com gotas auriculares: ciprofloxacino 0,3% com dexametasona 0,1% é uma das opções mais usadas, aplicada 2 gotas 2 vezes ao dia por 7 dias. O essencial aqui é a limpeza adequada do canal pelo médico, porque as gotas não penetram se o canal estiver obstruído por edema e secreção. Em casos de estenose grave, ele pode colocar um pavilhão auricular — um pequeno esponja que mantém o canal aberto para o medicamento circular.

Pegadinhas e erros comuns que eu já vi acontecerem

O erro mais frequente é o paciente parar o antibiótico assim que melhora. Se você começou a tomar amoxicilina e no terceiro dia a dor sumiu e a secreção parou, ainda precisa completar os 7 a 10 dias. Parar antes é receita para recorrência e resistência bacteriana. Isso é particularmente problemático em otite média, onde bactérias como Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae podem rapidamente voltar se a carga antibiótica não for suficiente.

/ Outro erro clássico é usar gotas auriculares por conta própria compradas em farmácia sem diagnóstico. Gotas com corticoide sozinhas podem mascarar uma infecção fúngica (otomicose), que é comum em climas quentes e úmidos e exige antifúngico tópico — usar antibiótico e corticoide num fungo só piora a coisa. Eu tratei três pacientes nos últimos meses que chegaram com otomicose agravada justamente por terem usado gotas prescritas para outra pessoa. Manter o ouvido seco durante o tratamento também é importante, mas isso não significa vedar com algodão embaixo d'água. Significa evitar natação e, ao tomar banho, colocar um algodão levemente untado com vaselina na entrada do canal. Nada de submergir a cabeça. Água contaminada em um ouvido com tímpano perfurado pode reintroduzir bactérias e revertar a melhora em horas.

Quando a cirurgia entra na equação

Perfurações timpanicas pequenas por otite aguda frequentemente se fecham sozinhas em 4 a 6 semanas com tratamento adequado. Você só precisa de acompanhamento otorrinolaríngologico para verificar a cicatrização. Se após 3 meses a perfuração persistir, pode ser necessário um timpanoplastia — reparo cirúrgico do tímpano com enxerto fascial. O índice de sucesso gira em torno de 85 a 90% em mãos experientes. Colesteatoma é indicação cirúrgica quase sempre. É uma expansão destrutiva do epitélio queratinizado dentro da cavidade timpânica que pode erodir ossículos, causar perda auditiva condutiva progressiva, e em estágios avançados, para o cérebro causando abcesso cerebral ou meningite. O tratamento é mastoidectomia com remoção da bolsa de colesteatoma. Não existe tratamento conservador eficaz para colesteatoma estabelecido. Se a secreção é recorrente do mesmo ouvido apesar de tratamento adequado, a suspeita de colesteatoma ou de um problema estrutural deve ser alta. Uma tomografia computadorizada de ossos temporais em alta resolução é o exame de escolha nesses casos.

A otite média aguda é uma infecção e inflamação do ouvido médio ...
A otite média aguda é uma infecção e inflamação do ouvido médio ...

O que investigar se o pus continua saindo mesmo após tratamento

Recidiva de secreção purulenta após tratamento completo merece reavaliação. As possibilidades incluem: resistência bacteriana (fazermos cultivo da secreção com antibiograma antes de reiniciar antibioticoterapia), presença de corpo estranho (comum em crianças que colocaram objetos no ouvido), colesteatoma não diagnosticado inicialmente, ou uma condição sistêmica como diabetes mal controlado que predispõe a infecções recorrentes e mais graves. Em diabéticos, otite externa maligna é uma possibilidade real e mortal se não tratada precocemente. É uma osteomielite do osso temporal causada predominantemente por Pseudomonas aeruginosa. Começa com dor persistent e secreção, e evolui para paralisia de nervos cranianos, granulação no fundo do canal auditivo, e em estágios avançados, envolvimento meníngeo. O tratamento exige hospitalização, antibioterapia endovenosa prolongada (ciprofloxacino ou ceftazidima por 6 a 8 semanas) e, em muitos casos, desbridamento cirúrgico. Scintigrafia com gálio-67 ou PET-CT são úteis para monitorar resposta ao tratamento. A recomendação final, e a mais importante: se tem secreção saindo do ouvido, marque um otorrinolaringologista. Automedicação.