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Saskia Sassen É Especialista Em Globalização E Processos Transnacionais

Saskia Sassen É Especialista Em Globalização E Processos Transnacionais

O que é a abordagem de Saskia Sassen sobre cidades globais

Eu trabalhei com análise de fluxos financeiros transfronteiriços em São Paulo durante uns seis anos antes de perceber que as teorias que eu via nos artigos eram praticamente opostas ao que acontecia na prática. Foi aí que eu voltei para os textos da Saskia Sassen, mais precisamente para The Global City de 1991 e Decoding the Global de 2006. A coisa mais útil que eu extraí foi uma ideia específica dela: o Estado-nação não está simplesmente sendo substituído pelo mercado global. O que acontece na verdade é uma fragmentação das funções estatais. Alguns poderes vão para organizações supranacionais, outros para agências transnacionais, e outros se dissipam completamente. Quando você olha para dados de comércio internacional de commodities agrícolas, nota algo curioso que a Sassen descreve bem. Grandes produtores de soja no Mato Grosso não negociam diretamente com compradores na China. Eles usam traders baseados em Cingapura, seguradoras em Londres, e consultores jurídicos em Nova York. O que isso significa é que a soberania financeira tradicional do Brasil foi parcialmente transferida para essas redes. E essa transferência é justamente o que ela chama de desestruturação da soberania estatal.

Saskia sassen é especialista em globalização e processos transnacionais

Eu testei essa teoria aplicando-a a relatórios de fluxos migratórios legais da América do Sul para a Europa. O padrão que eu observei é o seguinte: vistos de trabalho não são mais emitidos apenas pelos governos nacionais. Muitas vezes, empresas transnacionais patrocinam esses vistos através de estruturas corporativas em múltiplos países. Isso é exatamente o que ela chama de processos transnacionais. O Estado ainda existe, mas suas funções foram fragmentadas e compartilhadas com outros atores. O conceito central dela é que a globalização não é um fenômeno horizontal que nivela todas as sociedades. É, na verdade, um processo seletivo que concentra certas funções em cidades específicas. Essas cidades atuam como nodos de comando na economia global. Nova York, Londres, Tóquio, e também Shanghai aparecem com frequência nas análises dela como exemplos dessa concentração.

Como aplicar essa análise na prática

Eu costumo usar uma abordagem simples: mapear as sedes corporativas transnacionais que operam em uma determinada cidade e cruzar com dados de fluxos financeiros. Em São Paulo, por exemplo, identificar quais empresas estrangeiras têm escritórios de representação aqui permite calcular quanto do PIB local é efetivamente controlado por atores externos. Esse cálculo geralmente leva cerca de três dias de pesquisa, dependendo da disponibilidade dos dados. Um problema específico que eu encontrei foi que os dados de investimentos estrangeiros diretos do Banco Central do Brasil não distinguem adequadamente entre capitais produtivos e capitais especulativos. Para resolver isso, eu comecei a usar também dados da OCDE sobre empresas multinacionais, cruzando com informações setoriais do IBGE. Essa combinação reduziu significativamente a margem de erro nas minhas análises.

Saskia Sassen - Wikipedia
Saskia Sassen - Wikipedia

Limitações e contra-argumentos

A abordagem da Sassen tem limitações sérias que ela mesma reconhece em textos mais recentes. A principal é que ela foca excessivamente nas cidades globais do hemisfério norte. Quando você aplica o modelo a cidades do sul global, como Lagos ou Karachi, os resultados frequentemente não se encaixam. Nesses casos, eu recomendo combinar a análise dela com a teoria dos regimes urbanos de Jason Moore, que oferece uma leitura mais adequada das dinâmicas periféricas. Outro ponto fraco é que o conceito de "cidade global" tende a homogeneizar experiências diferentes. São Paulo não funciona da mesma forma que Singapura, mesmo que ambas apareçam em listas similares. Eu já vi relatórios acadêmicos que classificaram ambas como cidades globais de primeira ordem sem considerar que São Paulo tem índices de informalidade econômica muito superiores aos de Singapura. Isso distorce a análise quando você tenta comparar políticas públicas entre elas.

Alternativas e leituras complementares

Se o foco for especialmente em fluxos migratórios transnacionais, a obra de Alejandro Portes sobre comunidades transnacionais complementa bem a análise da Sassen. Ele mostra como migrantes mantêm vínculos simultâneos com países de origem e destino, algo que o modelo dela de fragmentação estatal não captura adequadamente. Para estudos sobre capitalismo global, David Harvey oferece uma crítica importante à visão da Sassen, argumentando que a fragmentação estatal é mais aparente do que real. Eu pessoalmente uso uma tabela comparativa simples que combina os três autores. Colunas para fragmentação estatal, vínculos transnacionais, e acumulação capitalista. Isso permite visualizar onde cada teoria se aplica e onde ela falha. O processo de construir essa tabela leva cerca de uma manhã, mas economiza semanas de leitura dispersa.