Tipos De Palmilha Ortopedica
Entendendo palmilha ortopedica na pratica
A maioria das pessoas compra a primeira palmilha que encontra na farmácia e espera que o problema nas costas ou nos joelhos resolva sozinho. Funciona para alguem em cerca de dois terços dos casos, mas quando não funciona, geralmente e porque o tipo errado foi escolhido ou porque a adaptaçao foi feita sem criterio. Vou explicar os principais tipos, como funcionam de verdade e onde a gente costuma errar. Existem basicamente tres categorias amplas que os profissionais realmente usam, e os nomes comerciais variam muito de clinica para clinica, o que aumenta a confusao. A primeira e a palmilha moldavel termoplastica, que e fornecida ja em forma do pes e voce so ajusta com calor. E a opcao mais comum para quem tem um sobrecarga mecanica simples, como um joanete que esta começando a doer ou um desconforto geral apos longas horas em pe. O custo fica entre 80 e 200 reais, dependendo da rigidez do material, e a vantagem e que voce ja sai da consulta com algo em uso na mesma tarde. O problema real surge quando o paciente tem um alinhamento que precisa de correcao mais agresiva. A palmilha termoplastica convencional nao tem força suficiente para modificar o retroverso do calcâneo, por exemplo, e voce acaba mandando o paciente de volta pra clinica no mes seguinte com a queixa aumentando. Eu já vi isso acontecer com varios jogadores de futebol amador que vinham reclamando de periostite e a palmilha "ajustavel" simplesmente nao segurava o retrocalcâneo em pronaçao extrema. A solucao que funcionou foi mudar para uma palmilha semi-rigida com calcanhar encapsulado, aquela que faz um sulco mais fundo em U ao redor do calcanhar, em vez de apenas elevar o arco. O sulco em U e um detalhe que muita gente negligencia, mas e o que realmente impede o calcanhar de virar pra dentro durante a fase de suporte do passo. A segunda categoria e a palmilha ortesesica personalizada, feita a partir de um molde gessado ou digital do pes do paciente. Esse e o padrao ouro para problemas estruturais, desalinhamentos mais complexos e condições como pé plano sintomatico ou hallux valgus moderado. O processo de captura do molde leva de 10 a 15 minutos, e a fabricaçao da palmilha em si varia de 3 dias uteis a 2 semanas, dependendo do laboratorio. Materiais como polipropileno rigido, EVA de varias densidades, ou combinações deles sao usados. Aqui entra um ponto que quase todo mundo esquece: a densidade do material deve ser proporcional ao peso do paciente e ao nível de atividade. Um EVA de alta densidade que funciona perfeitamente para uma pessoa de 60 quilos que caminha moderadamente vai deformar em semanas se usado por alguem de 100 quilos que fica o dia inteiro em pe. A regra pratica que eu uso aqui e: quanto mais peso e mais impacto, mais rigido o material, ate o limite de que a palmilha nao deve ser tao rigida a ponto de causar calos em pontos de pressao anormais. Já tive um caso recentemente de um paciente diabético que recebeu uma palmilha rigida de polipropileno sem a devida distribuiçao de pressao, e desenvolver uma ulcera de presião na cabeça do primeiro metatarso em 10 dias. A correcao foi refazer a palmilha com uma superficie de contato total mais amplia e um material com absorçao de impacto diferenciada nos metatarsos. Isso mostra que rigidez excessiva, mesmo sendo considerada "profissional", pode ser prejudicial se nao houver uma analise biomecanica prévia adequada.
A terceira categoria são as palmilhas de contato total, originalmente desenvolvidas para diabetes e para pacientes com neuropatia periférica. A ideia é distribuir a pressao por toda a superficie inferior do pes, eliminando pontos de pressao concentrada que podem levar a ulcerações. O material e tipicamente um polietileno de baixa densidade ou uma espuma viscoelástica coberta por tecido antibacteriano. Essas palmilhas são particularmente uteis para pacientes que perderam a percepção sensorial nos pés, porque a distribuição uniforme de pressao previne lesoes que o paciente nem sentiria no inicio. Uma limitação importante que muitos nao consideram: palmilhas de contato total podem piorar a estabilidade de alguem com instabilidade de tornozelo, porque a superficie macia e ampla reduz a propriocepção. Nesses casos, prefiro combinar uma palmilha de contato total com um cabedal mais firme ou uma sola com maior area de base.
Materiais e suas aplicacoes especificas
O choice do material eh tao importante quanto o design da palmilha em si. Vou listar os que vejo com mais frequencia no meu dia a dia e o que cada um entrega, sem enrolaçao. O polipropileno e o mais rigido das opcoes disponiveis comercialmente. Ele mantém a forma por anos, nao deforma com o tempo e oferece suporte mecanico solido para correcoes posturais. O defeito é que ele é pesado e pouco confortável nos primeiros dias de uso, porque o pes precisa se adaptar a nova geometria. A transiçao ideal dura entre 7 e 14 dias, usando a palmilha somente por 2 ou 3 horas no inicio, e aumentando gradualmente. Se voce colocar logo no principio o dia inteiro, vai terminar com dores de perna e coxas porque os músculos estabilizadores estao sendo forçados a trabalhar de forma diferente do que estavam acostumados. O EVA, ou etileno vinil acetato, vem em diversas densidades e e o mais versatil. Baixa densidade oferece amortecimento, alta densidade oferece suporte. Midsole de tenis de corrida tambem é feita de EVA, entao o material é amplamente conhecido. O problema do EVA é que ele se deforma com o tempo, especialmente sob carga e calor. Uma palmilha de EVA de boa qualidade dura entre 6 meses e 1 ano de uso regular. Depois disso, a compressao permanente reduce o suporte do arco e a palmilha precisa ser substituida. Muitos pacientes reclamam que a palmilha "parou de funcionar" depois de 8 meses, e a solucao nunca foi ajustar a palmilha existente, mas sim trocala por uma nova, porque o material simplesmente esgotou sua capacidade de recuperaçao elastica. A espuma viscoelastica, ou memory foam, e excelente para conforto imediato, mas oferece suporte biomecanico praticamente nulo. Ela se adapta a forma do pes, mas nao corrige alinhamento. É a escolha certa para quem precisa de alivio de pressao pontual, como em calcaneares ou na dos metatarsos, mas e insuficiente como tratamento isolado para pronaçao excessiva ou supinacao. Já usei viscoelástica sozinha em um paciente com fascite plantar que tinha tambem pronaçao leve, e o resultado foi pssimo: o amortecimento aliviava a dor na fascoa, mas a falta de controle da pronaçao mantinha o estresse mecânico no sistema. A combinaçao que funcionou foi uma base de EVA semi-rigido com uma camada de 5 milímetros de foam viscoelástico na regio do calcanhar. Isso deu o suporte necessário e o conforto na area de maior impacto.

Quando a palmilha ortopedica nao e a resposta certa
Existem situacoes em que palmilha alguma vai resolver o problema principal, e insister nela nessa condiçao só perde tempo e dinheiro do paciente. Um exemplo classico é a dor de origem nervosa, como uma ciatica ou uma neuropatia do nervo tibial posterior. Palmilha nao descomprime um nervo preso na coluna ou no tunel tarsiano. Outro exemplo e a artrose avançada do tornozelo ou do tarso. Nesses casos, o tratamento e outro, e a palmilha pode até ajudar como coadjuvante para redistribuir pressao, mas jamais sera a solucao primaria. Fazer um paciente acreditar que a palmilha vai curar uma artrose grau 3 e desonesto, e infelizmente acontece com mais frequencia do que eu gostaria. O correto e indicar a palmilha como parte de um plano multidisciplinar, que pode incluir fisioterapia, medicamentos, infiltrações e, em ultimos casos, cirurgia. Aqui vai uma dica pratica que pouca gente considera: a palmilha certa muitas vezes exige uma troca de calçado tambem. Eu tenho um par de teniss que eu uso pra correr, e quando coloquei uma palmilha ortopedica rigida dentro deles, o meu dedo mindinho começou a formar calos em uma semana. O motivo era simples: o volume interno do sapato era menor agora, porque a palmilha ortopedica era mais grossa que a palmilha original, e meu pé estava sendo comprimido lateralmente. A solucao foi comprar um calçado meio numero maior, ou entao trocar a palmilha original do sapato pela ortopedica, o que recupera parte do volume interno. Sem essa atençao, a palmilha mais bem feita do mundo vai gerar novos problemas por compressedao. A durabilidade media de uma palmilha ortopedica de qualidade, sob uso regular, e de 6 a 12 meses. Depois desse periodo, o material perde as propriedades elásticas e o suporte biomecanico cai drasticamente, mesmo que a palmilha ainda pareça visualmente intacta. Se voce sente que a palmilha "sumiu" ou parou de fazer efeito apos alguns meses, provavelmente chegou a hora de substituir, nao de ajustar. Ajustar uma palmilha que já esgotou sua vida util e como apertar um parafuso que já está escorregado.
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