Vicios De Linguagem Exercicios
O que são e como se exercitam na prática
Vícios de linguagem são desvios sistemáticos no uso da língua que surgem por hábito, influência regional, preguiça articulatória ou falta de familiaridade com a norma culta. Não são erros pontuais. Eles aparecem em padrões repetitivos e, quando multiplicados, deterioram a clareza do texto quase sem o escritor perceber. No dia a dia correto, a diferença entre um vício e um erro isolado é simples: o erro acontece uma vez e some. O vício fica. Você pode corrigir o erro. O vício exige reeducação. Estou acostumado a revisar textos de estudantes e profissionais que juravam escrever bem até eu mostrar exemplos concretos dos próprios parágrafos deles. É estranho ver alguém usar "segundo mim" como marcador de opinião pessoal, como se a opinião não fosse, por definição, pessoal. A pessoa não estava mentindo. Estava apenas repetindo um padrão que ouviu em contexto informal e transferiu para um registro formal sem notar.vicios de linguagem exercicios
Abaixo está uma lista de exercícios práticos organizados por tipo de vício. Cada item pede a identificação e a correção. O gabarito vem no final. 1. Plural incorreto de substantivos compostos Reescreva usando o plural correto:
a) Os guarda-roupas da casa precisavam de limpeza. b) Os couponês foram distribuídos na festa. c) Os papis de carta estavam espalhados pela mesa.
2. Regência verbal e nominal com uso indevido de preposição Identifique o problema e corrija: a) O professor obedecia as regras da instituição.
b) Assisto o filme todos os domingos. c) O candidato almejava o cargo com persistência. 3. Pleonasmo vicioso
Elimine a redundância desnecessária e mantenha o sentido: a) Ele subiu para cima da escada rapidamente. b) Nós veremos com nossos próprios olhos o acidente.
c) A entrada de entrada foi bloqueada pela polícia. 4. Uso indevido de pronome relativo Corrija a regência do pronome relativo quando necessário:
a) O livro cujo li era fascinante. b) A empresa a qual trabajo está falida. c) O professor de quem você precisa é muito rigoroso.
5. Concordância nominal e verbal conflituosa Identifique o erro e reescreva: a) Falam-se casas novas no bairro.
b) A maioria dos alunos faltaram na prova. c) Era sufficientes duas horas para concluir o trabalho. 6. Catacrese quando há termo técnico disponível
Substitua a metáfora consagrada por termos mais precisos, quando aplicável: a) A perna da mesa quebrou. b) O braço da poltrona estava solto.
c) A cabeça do prego enferrujou. 7. Estrangeirismos desnecessários Substitua termos em inglês ou espanhol por equivalentes em português quando existirem:
a) Vamos fazer um brainstorm da campanha. b) O software do sistema precisa de update. c) Ele tem muita atitude negativa no trabalho.
8. Ambiguidade estrutural Reescreva para eliminar ambiguidade: a) Vi o homem com o telescópio na praia.
b) A mãe contou à filha que tinha comprado um carro. c) O diretor falou com o secretário durante a reunião. 9. Barbarismo fonético e ortográfico
Corrija a forma gráfica e indique a pronúncia padrão: a) Ele comprou um corretim novo. b) A empregada fez uma limpesa profunda.
c) O menino caiu e fez um abcesso no joelho. 10. Arcaísmo desnecessário em registro contemporâneo Modernize o texto mantendo a formalidade:
a) Vimos, senhora, que vossa excelência possui razón. b) Porquanto ele não veio, cancelamos o evento. c) Outrossim, solicitamos a presença de todos.
Como aplicar esses exercícios sem se frustrar
A maioria das pessoas estuda vícios de linguagem de forma fragmentada. Lê definições, vê exemplos soltos e acha que sabe. Na prática, o problema é outro: a identificação exige leitura ativa, não reconhecimento passivo. Você precisa ler seu próprio texto como se fosse de outra pessoa. Esse distanciamento é o que permite enxergar o padrão repetitivo. Eu costumo recomendar um método simples que funciona na maior parte dos casos. Primeiro, escreva um texto livre de dez parágrafos sobre qualquer tema do seu interesse. Segundo, releia com atenção exclusiva aos dez vícios listados acima. Terceiro, sublinhe tudo que parecer estranho, mesmo que não tenha certeza. Quarto, consulte uma gramática de referência ou um dicionário de regência para cada item sublinhado. Quinto, reescreva o texto inteiro aplicando as correções. Sexto, guarde a versão corrigida e repita o exercício em outra semana com um texto novo. Esse ciclo leva cerca de quarenta minutos na primeira vez. Depois de três semanas, o tempo cai para quinze. A melhora não é linear. Há dias em que você acha que dominou concordância e, na mesma tarde, comete dois erros de regência. Isso é normal. O cérebro não apaga hábito antigo com uma correção só. Ele substitui. E a substituição exige repetição.O que começa a dar errado na prática
O principal problema que vejo em quem estuda vícios de linguagem isoladamente é a transferência cega de regras. Um estudante aprende que "haja vista" não leva crase e, na semana seguinte, escreve "haja vista a dificuldade" com Crase, porque a regência do verbo principal mudou de contexto. A regra técnica está certa. A aplicação está errada. Outro erro comum é tratar vício como sinônimo de erro de digitação. Quando alguém digita "por que" no lugar de "porquê", isso é um erro gráfico. Quando alguém usa "mesmo assim" dez vezes num parágrafo curto, isso é vício de repetição. A correção é diferente. A primeira se resolve com revisão ortográfica. A segunda se resolve com consciência estilística. Eu já vi revisores profissionais ignorarem vícios de regência porque o texto "soava bem". Soar bem não é critério técnico. O ouvido é entrenado por exposição, não por norma. Se você ouviu muito um uso errado em podcast, entrevista ou redes sociais, seu ouvido naturaliza. A gramática não se importa com naturalização. Ela registra o padrão que mantém a inteligibilidade em registro formal.Gabarito comentado
1. Plural incorreto a) Correto: Os guarda-roupas da casa precisavam de limpeza. (guarda-roupa é invariável no plural quando composto de verbo + substantivo) b) Errado:couponês. Correto: Os cupons foram distribuídos na festa.
c) Errado:papis. Correto: Os papéis de carta estavam espalhados pela mesa. 2. Regência a) Errado: O professor obedecia as regras. Correto: O professor obedecia às regras. (obedecer rege preposição "a")
b) Errado: Assisto o filme. Correto: Assisto ao filme. (assistir no sentido de "ver" rege preposição "a") c) Errado: almejava o cargo. Correto: almejava o cargo. (almejar é VT, então essa está correta; o vício aqui é a suposta necessidade de preposição) 3. Pleonasmo vicioso
a) Ele subiu a escada rapidamente. b) Veremos o acidente com nossos próprios olhos. (o pleonasmo "ver com os olhos" é legítimo, mas "nós veremos com nossos próprios olhos o acidente" é redundante em contexto formal) c) A entrada foi bloqueada pela polícia.
4. Pronome relativo a) Errado: cujo li. Correto: o qual li / que li. b) Errado: a qual trabajo. Correto: a qual trabalho. (trabajo é espanhol; o correto é "trabalho")
c) Correto: O professor de quem você precisa é muito rigoroso. 5. Concordância a) Errado: Falam-se casas. Correto: Fazem-se casas. (construção com "se" como partícula apassivadora exige concordância com o sujeito: "Fazem-se casas novas no bairro")
b) Errado: A maioria dos alunos faltaram. Correto: A maioria dos alunos faltou. (a concordância recai sobre "maioria", que é singular) c) Errado: Era sufficientes. Correto: Eram suficientes. ("horas" é plural, logo "suficientes" também) 6. Catacrese
Estes três exemplos são aceitos na norma culta como catacrese consolidada. A indicação técnica existe ("pé da mesa", "braço da cadeira", "cabeça do prego"), mas o uso consolidado é pleno. O exercício serve para distinguir catacrese aceitável de catacrese forçada. Em textos técnicos, prefira o termo preciso. Em textos literários ou informais, a catacrese consolidada é natural. 7. Estrangeirismo a) Vamos fazer uma brainstorming da campanha. (ou: uma discussão criativa / uma sessão de ideias)
b) O software do sistema precisa de atualização. c) Ele tem muita atitude negativa no trabalho. (atitude já é termo aceptado; o estrangeirismo real aqui seria algo como "he has a lot of negative vibes" -- o exemplo dado não contém estrangeirismo, servindo como isca) 8. Ambiguidade
a) No telescópio, na praia, vi o homem. / Vi o homem que tinha um telescópio na praia. b) A mãe contou à filha que ela tinha comprado um carro. / A mãe contou à filha: "Comprei um carro." c) O diretor falou com o secretário, e ambos estiveram na reunião. / O diretor, durante a reunião, falou com o secretário.
9. Barbarismo a) corretim corretivo b) limpesa limpeza
c) abcesso machucado / hematoma (abcesso é termo médico específico; se o sentido é outro, o barbarismo está no uso indevido) 10. Arcaísmo a) Vimos, senhora, que sua excelência tem razão.
b) Como ele não veio, cancelamos o evento. c) Além disso, solicitamos a presença de todos.
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