A Revolução Da Russa De 1917
O que aconteceu entre fevereiro e outubro de 1917
O Império Russo entrou na Primeira Guerra Mundial em 1914 com uma máquina militar desorganizada, indústria incapaz de acompanhar a demanda e um governo que já estava em colapso administrativo interno. Quando Nicolau II assumiu o comando direto das forças armadas em 1915, transferiu a culpa das derrotas militares para si mesmo, enquanto a imperatriz Alexandra permanecia em Petrogrado confiando em Raspoutine, o que minou ainda mais a legitimidade da coroa. A situação econômica se deteriorou rapidamente. A inflação disparou, o abastecimento de alimentos nas cidades diminuiu e as ferrovias, sobrecarregadas pelo transporte militar, não conseguiam levar grãos das regiões rurais para os centros urbanos. Em 23 de fevereiro de 1917 (calendário juliano), manifestações por pão em Petrogrado se transformaram em greves gerais quando soldados da guarnição se recusaram a disparar contra os manifestantes e passaram a integrar as fileiras protestantes.
As causas estruturais de a revolução da russa de 1917
A revolução bolchevique não surgiu do nada. As raízes remetem ao decreto de Emancipação de 1861, que libertou os servos mas os deixou sem terra suficiente e endividados. A modernização acelerada sob Sergei Witte no início do século XX criou uma classe operária concentrada nas fábricas de Petrogrado e Moscovo, sem representação política correspondente. O sistema zemstvo oferecia participação limitada nas elites rurais, mas a Duma, criada após a revolução de 1905, tinha poderes seriamente restritos e podia ser dissolvida a qualquer momento pelo czar. Um erro comum é tratar a revolução como um evento único. Ela foi composta por duas fases distintas com dinâmicas completamente diferentes. A revolução de fevereiro derrubou o czarismo e estabeleceu um governo provisório liberal sob o príncipe Lvov, depois Alexander Kerensky, enquanto simultaneamente surgiam os soviets — conselhos de trabalhadores e soldados — que detinham poder real nas ruas e nas guarnições. O governo provisório cometeu o erro estratégico de manter a Rússia na guerra. Questa decisão alienou os soldados, que representavam a maioria dos membros dos soviets, e os camponeses, que queriam terra, não mais trincheiras na frente ocidental. Lenin, que retornou à Rússia em abril de 1917 através da famous sealed train alemã, apresentou imediatamente as Teses de Abril, exigindo todo o poder aos soviets e o fim imediato da guerra. A proposta era radical e aparentemente impossível, mas refletia exatamente o que a base popular queria ouvir.
A tentativa de contra-revolução liderada pelo general Kornilov em agosto de 1917, quando Kerensky pediu aos soviets e aos bolcheviques que organizassem a defesa de Petrogrado, acabou fortalecendo os bolcheviques. Eles armaram a Guarda Vermelha, ganharam maioria nos soviets de Petrogrado e Moscovo, e quando a rebelião de Kornilov foi rapidamente contida, os bolcheviques saíram muito mais fortalecidos politicamente do que antes. Em 25 de outubro de 1917 (7 de novembro no calendário gregoriano), os bolcheviques tomaram o inverno de Kerensky e os ministérios governamentais em Petrogrado com relativa facilidade. O que aconteceu naquele dia foi menos uma insurreição armada massiva do que um golpe de estado bem coordenado por uma organização disciplina que ocupou pontos estratégicos da cidade enquanto o governo não tinha força militar leal para responder.

O que fazer se precisar analisar fontes primárias do período
Quando estou lidando com documentos da época revolucionária, o problema mais frequente é a questão calendárica. A Rússia usava o calendário juliano até fevereiro de 1918, o que significa que todas as datas antes desse ponto estão deslocadas em 13 dias em relação ao calendário gregoriano que o Ocidente utiliza. Isso causa confusão constante em traduções e edições modernas. Se você ler que os bolcheviques tomaram o poder em 25 de outubro, some 13 dias e terá a data correta no calendário atual: 7 de novembro. Uma dificuldade prática que enfrentei recentemente envolvia a leitura de jornais da época digitalizados nos arquivos do Arquivo Estatal da Federação Russa. Muitos desses documentos estavam em cirílico com tipografia pré-revolucionária, incluindo letras como yat () e fita () que foram abolidas na reforma ortográfica soviética de 1918. O arquivo online fornecia imagens em resolução baixa e a pesquisa full-text frequentemente falhava porque os OCRs modernos não reconheciam essas formas arcaicas. Minha solução foi cruzar as citações com a coleção digitalizada do projeto Radical Russia da Universidade de Wisconsin, que possui transcrições revisadas por especialistas para os principais periódicos como o Pravda inicial e a Izvestia. Para documentos manuscritos, a melhor opção segue sendo consultar o catálogo do GARM em Moscovo ou solicitar digitalizações específicas, embora o processo de obtenção para pesquisadores estrangeiros demore entre seis e oito semanas. Outro aspecto que os manuais introdutórios costumam ignorar é a fragmentação do poder entre fevereiro e outubro de 1917. O governo provisório detinha o reconhecimento formal internacional, mas os soviets controlavam a rua, as quartéis e as fábricas. Essa dualidade de poder, conceito analítico desenvolvido por Trotsky em sua História da Revolução Russa, não era uma anomalia passageira, mas a estrutura real da situação política. Quem analisa esse período tratando o governo provisório como o único centro de decisão está lendo a história de forma distorcida.
Os bolcheviques também não chegaram ao poder com uma teoria coerente e final. Suas posições mudaram drasticamente entre abril e outubro. Em março, a maioria dos líderes bolcheviques, incluindo Kamenev e Stalin, consideravam Lenin uma utópico por querer uma revolução socialista imediata num país predominantemente camponês. Foi apenas após semanas de debate interno, da crise do governo provisório e da falência da politica de coalizão com os social-revolucionários de centro que a direção do partido se converteu. O XVII Congresso do partido em julho já mostrava os bolcheviques como a facção mais organizada dos soviets de Petrogrado, mas ainda não tinham a maioria absoluta. A repressão da esquerda dentro da própria revolução começou quase imediatamente. O decreto sobre a imprensa, emitido em novembro de 1917, fechou jornais de outros partidos socialistas, incluindo o Partido Socialista Revolucionário e os mencheviques, sob a alegação de que publicavam chamados à ação contra o governo sovietico. Esse medida criou precedentes que durariam décadas e que muitos estudiosos ocidentais posteriores tenderam a minimizar por comodidade ideológica. A Guerra Civil Russa que se seguiu, de 1918 a 1922, transformou as políticas revolucionárias iniciais em algo muito mais autoritário do que qualquer líder bolchevique havia planejado em 1917. O comunismo de guerra, o terror vermelho, a dissolução da Assembleia Constituinte em janeiro de 1918 depois que os bolcheviques perderam as eleições para os social-revolucionários — tudo isso são desdobramentos que se enraízam nas decisões daquele ano, mas que exigem contexto militar e econômico para serem compreendidos corretamente.
Se você está começando a estudar o período, a bibliografia em português é limitada. O livro "1917: A Revolução Russa" de Sebastian Haffner oferece uma visão acessível, embora tendenciosa em vários pontos. Para fontes mais sólidas, "The Russian Revolution" de Sheila Fitzpatrick continua sendo o melhor trabalho introdutório em inglês, com uma revisão historiográfica honesta das últimas décadas. A coleção documental "Russia in the Age of Revolution, 1855-1921" organizada por Nicholas V. Riasanovsky contém traduções confiáveis de discursos, decretos e proclamações originais que são indispensáveis para qualquer análise séria. O principal risco ao estudar esse período é a projeção retroativa. Os acontecimentos de 1917 parecem destinados a levar ao establishment soviético porque sabemos como tudo terminou. Mas no momento, o desfecho estava longe de ser óbvio. Trotsky ficou fora do Kremlin durante grande parte de 1917 e inicialmente subestimou a importância do partido de Lenin. Stalin não era uma figura central em outubro. A NEP, adotada em 1921, representou um recuo completo em relação às políticas iniciais dos bolcheviques. O próprio Lenin morreu em 1924, incapaz de determinar quem o sucederia, e a luta pelo poder que se seguiu reinterpretou e distorceu a memória de 1917 conforme as necessidades políticas de Stalin. Manter a distância analítica entre o que os atores perceberam em cada momento e o que sabemos hindsight é essencial. A revolução não era um roteiro escrito, mas uma sequência de decisões tomadas por pessoas com informação incompleta, pressão extrema e opções limitadas. Essa realidade é muito mais interessante do que qualquer narrativa determinista.

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