Atualmente A Linguagem Da Correspondência Comercial Livrou Se Das Expressões
A evolução do tom nos documentos corporativos brasileiros
Você já deve ter pego um ofício antigo ou uma carta comercial dos anos 90 e se perguntado por que alguém escrevia "venho por meio desta solicitar vossa senhoria a gentileza de encaminhar..." para pedir um documento simples. A resposta é que antigamente a formalidade excessiva era o padrão esperado, não um recurso estilístico. Hoje isso mudou drasticamente. Atualmente a linguagem da correspondência comercial livrou-se das expressões arcaicas que só serviam para inflar o texto e esconder a falta de clareza. O que se vê agora são e-mails diretos, memorandos com assunto explicativo e contratos com linguagem acessível. Isso não significa que a profissão perdeu profissionalismo. Significa que os leitores cansaram de perder tempo decifrando o que o remetente queria dizer.
Atualmente a linguagem da correspondência comercial livrou-se das expressões
Essa mudança não aconteceu por decreto. Foi um conjunto de fatores: plataformas digitais de comunicação, cultura de startup nos grandes centros, exigência de compliance com leis como a LGPD (que pede transparência nos tratamentos de dados), e principalmente a pressão por eficiência operacional. Ninguém tem paciência para ler três parágrafos de introdução antes de encontrar o pedido real. Na prática, isso significa que ao redigir uma solicitação de cotação hoje, você escreve algo como "Solicitamos cotação para 50 unidades do produto X, com prazo de entrega até dia 15/08" em vez de "Na qualidade de empresa dedicada a prestar os melhores serviços do mercado, vimos respeitosamente à presença de Vossas Senhorias requerer a gentileza de nos enviar prévio orçamento para aquisição de material de escritório". O segundo exemplo é real. Eu vi isso num contrato de fornecimento há poucos anos atrás. Se você trabalha com área jurídica ou compliance, vai argumentar que a formalidade protege a empresa. Há algum mérito nisso. Mas proteção jurídica não se constrói com vocabulário rebuscado. Constrói-se com cláusulas bem escritas, que ainda podem ser claras e objetivas. Já vi contratos de milhões de reais escritos em português acessível. E já vi letras minúsculas em fontes microscópicas escondendo condições abusivas. O problema nunca foi a simplicidade da linguagem.
Como aplicar na prática
O primeiro passo é fazer uma audição no seu próprio material. Pegue cinco documentos seus dos últimos meses e leia cada frase perguntando: "isso é necessário?". Se a resposta for não, corte. Frases como "vem mediante", "face a", "ato contínuo", "nos moldes do disposto", "sem mais para o momento" são resíduos de um estilo que não tem lugar em comunicações internas ou e-mails comerciais diretos. O segundo passo é adotar a estrutura inversa. Comece pelo que importa. Em um e-mail de cobrança, diga quanto deve e até quando. Depois, se necessário, justifique. Nunca o contrário. O terceiro passo é revisar com olhar de quem não conhece o contexto. Quando você escreve, seu cérebro preenche as lacunas. Alguém de fora vai ler cada palavra literalmente. Envie seu rascunho para um colega da área operacional e peça para ele apontar o que não ficou claro. Isso economiza horas de trocas de e-mails depois.

Um problema que encontrei recentemente foi com um cliente do setor público que exigia que todas as comunicações seguissem um modelo rígido de ofício, com saudações protocolares e estruturas fixas. A solução foi criar um template interno com os campos obrigatórios do modelo oficial, mas preenchendo o corpo do texto com linguagem direta. O formulário deles permanecia intacto para fins de conformidade, mas a mensagem em si era compreensível na primeira leitura. Funcionou bem por dois anos até que o órgão mudou a regulamentação e exigiu o texto integral no formato antigo. A lição é que setores regulados às vezes obrigam a volta de formalidades. Fique atento a essas mudanças.
P armacos comuns que ainda aparecem
"Venho por meio deste" — redundancy pura. "Este" já indica o documento. Basta dizer "Solicito" ou "Informo". "Samos gratos pela atenção dispensada" — fórmula de fechamento que não agrega informação. Um simples "Atenciosamente" resolve. "Diante do exposto, requeremos" — o "diante do exposto" é desnecessário. Se você está requendo algo no final do texto, fica óbvio.
"Rogamos a gentileza de" — substitua por "solicitamos". A gentileza está no tom, não nas palavras. Esses exemplos são os mais frequentes. Mas o verdadeiro perigo está em expressões que parecem inofensivas mas criam ambiguidade jurídica. Frases como "conforme combinado verbalmente" ou "nos termos da nossa relação comercial" são vagos demais para terem valor probatório em uma disputa. Sempre que possível, substitua por referências específicas: número do contrato, data da reunião, nome dos envolvidos, e-mail de confirmação.

Quando a formalidade ainda é necessária
Não se engane achando que a simplificação vale para tudo. Documentos de natureza legal, notificaca extrajudicial, comunicados oficiais a órgãos reguladores e correspondência com a prefeitura ou órgãos públicos muitas vezes exigem linguagem formal. Nesses casos, a precisão técnica e o respeito às convenções do gênero importam mais que a clareza coloquial. O equilíbrio está em entender qual é o gênero correto para cada situação. Um e-mail entre colegas de empresas diferentes não é um ofício. Uma memorandum interna não é uma petição judicial. Cada formato tem suas próprias regras. O erro mais comum é tratar todos os documentos como se fossem iguais, seja por excesso de formalidade em situações informais, seja por excesso de informalidade em contextos que exigem rigidez. Para quem quer se atualizar, recomendo acompanhar as diretrizes de comunicação de grandes escritórios de advocacia e consultoria que publicam guias de estilo. Também vale consultar manuais de redação institucional de bancos e grandes corporações, que costumam ter versões públicas de suas normas. O Banco Central do Brasil, por exemplo, tem orientações sobre clareza em comunicações aos consumidores que são aplicáveis mesmo em contextos B2B.
O resultado final de adotar essa abordagem costuma ser uma redução de cerca de 30 a 40% no tempo médio de elaboração de documentos rotineiros, segundo relatos de equipes que implementaram a mudança. O ganho em comprensión por parte do destinatário é ainda mais significativo. E em um contexto onde mal-entendidos em correspondência comercial podem gerar prejuízos financeiros diretos, esse investimento em clareza se paga rápido. O que permanece como desafio permanente é manter o padrão quando a pressão do dia a dia aumenta. Em momentos de urgência, é tentador voltar aos atalhos linguísticos que a gente acha que já superou. A dica prática é ter templates aprovados para os casos mais frequentes. Assim, mesmo na correria, o padrão de clareza se mantém sem exigir esforço adicional de quem está redigindo.
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