Como É Feita A Curetagem De Aborto
O procedimento básico
A curetagem uterina, também chamada de dilatação e curetagem (D&C), é um procedimento ginecológico que consiste na dilatação do colo do útero seguida da raspagem da cavidade uterina com instrumentos chamados curetas. No contexto de aborto, pode ser realizada como método de interrupção da gravidez ou como procedimento de urgência após uma perda gestacional incompleta. O procedimento começa com a avaliação prévia: ultrassom para confirmar a idade gestacional, exames de sangue (tipo sanguíneo, hemoglobina, coagulação), e teste para Rh negativo, pois a paciente pode precisar de imunoglobulina anti-D. A paciente é posicionada em litotomia e submetida à anestesia — geralmente raquiana ou geral, dependendo da clínica e da preferência médica. O colo uterino é gradualmente dilatado com hansen dilatadores, de números pequenos a crescentes, até atingir a largura necessária para a entrada da cureta. Em gestações mais precoces (até 7-8 semanas), pode-se usar a mini-curetagem, onde a dilatação é menor. O ato em si dura em torno de 5 a 15 minutos. A cureta retalhiforme remove o conteúdo endometrial. Na prática clínica moderna, muitos ginecologistas preferem a sucção mecânica (aspiração manual ou elétrica) em vez da curetagem por raspagem, pois causa menos trauma endometrial e sangramento reduzido.
Um problema recorrente que eu vi no consultório é a retenção de fragmentos de tecido mesmo após a curetagem parecer completa visualmente. O paciente entra em baixo sangramento, mas o ultrassom de controle mostra ecogenicidade residual. A solução que funcionou consistentemente foi a aspiração com cânula de Frigessi número 8, que alcança regiões que a cureta metálica não alcança — principalmente os cantos uterinos. Evita-se nova curetagem cega, que aumenta o risco de aderências.
O que esperar pós-procedimento
O sangramento pós-curetagem dura em média de 7 a 14 dias, com intensidade variável — geralmente mais abundante nas primeiras 48 horas, depois diminuindo progressivamente. Cólicas moderadas são normais nos primeiros três dias. Dor intensa que não responde a anti-inflamatórios, febre acima de 38°C, ou sangramento que enche mais de uma calcinha por hora em duas horas consecutivas são sinais de complicação e exigem retorno imediato à emergência. O risco de complicação grave é baixo quando o procedimento é realizado por profissional qualificado em ambiente adequado, mas existe: perfuração uterina (incidência aproximada de 1 em 1.000 a 3 em 1.000), síndrome de Asherman — formação de aderências intrauterinas que podem comprometer a fertilidade futura —, infecção endometrial e retenção placentária. Mulheres que já tiveram curetagens repetidas têm risco aumentado de adenomiose e infertilidade secundária.

Limitações do método
A curetagem tradicional não é indicada para todos os casos. Gestações acima de 12 semanas apresentam maior risco de sangramento e de retenção de tecido. Em gestações tardias, métodos medicamentosos ou dilatação e evacuação cirúrgica são preferíveis. O procedimento também não remove a placenta em sua totalidade se houver inserção placentária anormal, como na placenta accreta. Nesses cenários, a curetagem pode ser perigosa e exige conduta especializada, muitas vezes com embolização seletiva ou histerectomia em casos extremos. Muitas pacientes buscam a curetagem como alternativa ao método médico (mistura de mifepristona e misoprostol), mas na verdade cada abordagem tem indicações distintas. O método médico evita instrumentalização intrauterina e o risco de aderências, mas leva mais tempo e tem taxa de sucesso um pouco menor, em torno de 95%, contra 98-99% da sucção mecânica. Escolher um ou outro deve ser baseado na idade gestacional, preferência da paciente e disponibilidade local, não em suposições.
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