Dom Quixote Quem Escreveu
dom quixote quem escreveu
O autor de Dom Quixote é Miguel de Cervantes Saavedra. Nasceu em Alcalá de Henares por volta de 1547 e morreu em Madrid em 1616. A primeira parte do livro saiu em 1605, intitulada "El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha". A segunda parte veio dez anos depois, em 1615. Não há grande mistério nisso, mas o processo de publicação e a recepção da obra são onde as coisas ficam interessantes. Muita gente acha que existe uma única edição canônica, quando na verdade o texto de Cervantes passou por ajustes entre as duas partes. Na primeira parte, ele introduce um suposto manuscrito árabe de Cide Hamete Benengeli como fonte. É uma brincadeira literária. Cervantes está zombando dos cronistas medievais que inventavam descendências heroicas para justificar narrativas. Mas alguns editores posteriores trataram essa ficção dentro da ficção como se fosse um fato histórico real. Já vi edições brasileiras dos anos 80 que incluíam notas de rodapé apresentando Cide Hamete como se ele tivesse existido de verdade. O problema é que isso cria uma camada desnecessária de complexidade. O autor real, o cara que pegou a pena e escreveu as páginas, foi Cervantes. Ele estava preso por dívidas, trabajava como coletor de impostos e escreveu Dom Quixote praticamente como quem passa o tempo matando a boredom. A inspiração dele veio da leitura excessiva de romances de cavalaria. Ele mesmo conta isso no prólogo da primeira parte, dizendo que ficou maluco lendo tantos livros que resolveu escrever algo que desmontasse aquele gênero.
o caso avellaneda
Aqui está um ponto que pouca gente conhece. Em 1614, três anos antes da segunda parte de Cervantes sair, apareceu uma obra intitulada "Segundo tomo del ingenioso caballero Don Quijote de la Mancha". O autor era pseudônimo de un tal Alonso Fernández de Avellaneda. Na época, ninguém sabia quem era. Hoje os estudiosos apontam para Jerónimo de Pasamonte ou até Francisco de Quevedo, mas nunca houve consenso definitivo. O que o Avellaneda fez foi escrever uma continuação paralela com o Dom Quixote viajando por Aragão em vez de ficar na Mancha. Cervantes ficou sabendo e ficou furioso. Na segunda parte dele, há referências diretas ao livro falso. Os personagens de Cervantes falam sobre terem lido aquela obra malfeita. É como se o autor original entrasse no próprio texto para reclamar do plagio. Isso é raro na literatura do século XVII. Na minha experiência traduzindo trechos comparativos entre as duas versões, percebi que o tom de Cervantes muda completamente quando ele aborda o assunto. Ele fica mais seco, mais cortante.
detalhes práticos sobre as edições
Se você quer ler Dom Quixote em português, as traduções variam muito em qualidade. A tradução de Julio Castañon de las Casas, feita nos anos 90 pela Editora 34, é considerada uma das melhores disponíveis no Brasil. Ela preserva o tom coloquial do original espanhol sem cair no formalismo excessivo que algumas versões mais antigas adotam. Outra questão importante é que existem cortes em muitas edições brasileiras. A primeira parte tem cerca de 500 páginas em edição completa. Versões resumidas podem cortar capítulos inteiros, incluindo passagens importantes sobre a discussão entre Quixote e Sancho Panza sobre liberdade versus servidão. Eu já li três edições diferentes e a versão completa realmente faz diferença. O livro é maior do que a maioria das pessoas imagina.

a estrutura do livro
Dom Quixote não é um romance linear no sentido moderno. A primeira parte segue Quixote saindo três vezes de casa, encontrando Sancho Panza e enfrentando uma série de aventuras que são na verdade mal-entendidos. O cavaleiro vê moinhos de vento como gigantes, rebanhos de ovelhas como exércitos, e prostitutas como damas nobres. A segunda parte é mais sofisticada. Agora os personagens sabem que são figuras de um livro. Pessoas que leram a primeira parte reconhecem Quixote e Sancho e decidem pregar peças neles. É uma camada metalinguística que Cervantes adicionou provavelmente em resposta ao livro do Avellaneda. Na prática, isso significa que a segunda parte funciona tanto como continuação quanto como comentário sobre a recepção da própria obra. É um dos primeiros exemplos de autoficção na literatura ocidental. A maioria dos leitores brasileiros só lê a primeira parte porque as edições escolares costumam parar ali. A segunda parte é onde o livro realmente brilha.
o que fazer se quiser estudar o texto
Se você quer se aprofundar, recomendo começar pela edição crítica de Humphrey Page, publicada pela cátedra del Instituto Cervantes. Ela traz notas explicativas em espanhol e um apparatus crítico completo. Para leitores brasileiros, a tradução da Editora 34 acompanha boas notas de rodapé que ajudam a entender as referências culturais da Espanha dos séculos XVI e XVII. Um detalhe técnico que muita gente ignora: Cervantes escrevia usando uma forma de espanhol que misturava o castelhano padrão com influências andaluzas e aragonesas. Isso aparece nos diálogos de Sancho Panza, que fala de forma mais popular e regional. Se você ler apenas em tradução portuguesa, perde essas camadas dialetais. A versão de Castañon tenta compensar isso usando um português mais coloquial para Sancho, mas ainda há perdas inevitáveis. A obra continua sendo relevante quase 400 anos depois porque Cervantes entendeu algo fundamental sobre a condição humana: a fronteira entre loucura e sanidade é sempre uma questão de perspectiva. Dom Quixote parece louco até o momento em que percebemos que o mundo ao seu redor é ainda mais absurdo do que suas alucinações.
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