POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Enzima Convertidora De Angiotensina

Enzima Convertidora De Angiotensina

Entendendo a enzima e o que ela faz no seu corpo

A enzima convertidora de angiotensina, conhecida pela sigla ACE, é uma peptidil dipeptidase produzida principalmente nos pulmões e na parede dos vasos sanguíneos. Ela converte a angiotensina I em angiotensina II, um vaso constritor poderoso. Esse é o caminho principal do sistema renina-angiotensina-aldosterona, e entender essa via é o que permite tratar hipertensão, insuficiência cardíaca e doença renal crônica de forma coerente. O sistema como um todo funciona assim: o rim libera renina quando a perfusão cai. A renina corta a angiotensinogênio em angiotensina I, que ainda não tem ação vascular relevante. Aí entra a enzima convertidora, que remove dois aminoácidos e gera a angiotensina II. Essa molécula aperta os vasos, estimula a liberação de aldosterona e aumenta a retenção de sódio e água. O resultado final é pressão alta se o sistema ficar ativado demais.

Papel da enzima convertidora de angiotensina na fisiologia

O que pouca gente explica direito é que a ACE também degrada a bradiniqueta, um peptídeo vasodilatador. Quando você usa um inibidor da ACE, duas coisas acontecem ao mesmo tempo: a produção de angiotensina II cai, mas a bradicinina se acumula. Esse acúmulo é exatamente o que causa a tosse seca em cerca de 20% dos pacientes e, em casos raros, o angioedema. Não é efeito colateral aleatório, é farmacologia direta do mecanismo. Eu já vi muitos clinicians tratarem a tosse como uma coincidência e mandarem o paciente voltar semanas depois com o problema intacto. A correção é simples: trocar para um BRA (bloqueador do receptor da angiotensina) resolve porque o BRA não interfere na degradação da bradicinina. Se o paciente tosse com inibidor da ACE, testar o sartano na mesma dose anti-hipertensiva costuma ser a saída mais rápida, sem perder controle pressórico.

Como os inibidores da ACE funcionam na prática clínica

Os medicamentos que bloqueiam essa enzima são: captopril, enalapril, lisinopril, ramipril, quinapril, perindopril e bemsetril. Cada um tem farmacocinética diferente, mas o efeito final no sistema renina-angiotensina é o mesmo. A diferença prática está na meia-vida e na dependência alimentar. O captopril tem meia-vida curta e precisa ser usado três vezes ao dia na maioria dos casos. O enalapril dura mais, mas precisa de conversão hepática para virar enalaprilato, o que em pacientes com doença hepática avançada pode tornar a resposta imprevisível. O lisinopril não precisa de ativação hepática e é excretado pelos rins, então em gente com clears de creatinina abaixo de 30 ml/min a dose tem que ser ajustada ou o efeito se acumula de forma perigosa. Um detalhe que eu aprendi na prática e que livros didáticos muitas vezes tratam como nota de rodapé: começar com dose baixa e titular é importante não só para evitar a primeira dose hipotenso, mas para dar tempo do rim se adaptar. Quando vocêa a dose rápido demais, o filtração glomerular pode cair de forma abrupta porque a aferência sai do controle da angiotensina II. O rim fica sem a regulação que ele havia se adaptado a ter.

Enzima convertidora de angiotensina - EcuRed
Enzima convertidora de angiotensina - EcuRed

No meu caso, tive um paciente com estenose bilateral da artéria renal que eu não tinha identificado no início. Coloquei enalapril 10 mg pela manhã e, em 48 horas, a creatinina subiu de 1,2 para 2,8 mg/dl. Não foi sincope, não foi mal-estar, foi apenas um laborial silencioso que pegamos no retorno precoce. A solução foi suspender o inibidor, hidratar e investigar a causa com Doppler renal. Depois de corrigido o estreitamento, voltei a usar o medicamento com monitoramento semanal nos primeiros 30 dias. Esse protocolo de dosagem de creatinina e potássio em 7 e 30 dias após iniciar ou mudar dose de inibidor da ACE evita surpresas do tipo que eu jávi acontecer.

Pontos cegos e limitações dos inibidores

Inibidor da ACE não é bala de prata. Existem cenários em que ele não deve ser usado ou precisa de extrema cautela. Estenose bilateral de artéria renal é uma delas. Insuficiência renal grave sem ajuste de dose é outra. Hipercalemia prévia ou uso concomitante de suplemento de potássio, K+ sparing ou AINEs cronificados aumenta o risco de hipercalemia sintomática, que pode chegar a arritmia em questão de dias se o monitoramento for negligenciado. Outro ponto que vejo muito gente errar: associar inibidor da ACE a AINEs de forma crônica sem revisar a função renal. O AINE restringe a aferência, o inibidor da ACE tira a proteção da eferência. O rim fica sem regulação de pressão intraglomerular e a TFG despenca. Em pacientes idosos com dor crônica, essa combinação é mais frequente do que o normal e a lesão renal muitas vezes só é percebida quando o quadro já está instalado. Se o paciente não tolera inibidor da ACE por tosse persistente ou angioedema, a alternativa recomendada é o bloqueador do receptor da angiotensina II. Os BRAs não tocam na bradicinina, então o perfil de tosse praticamente desaparece. A eficácia anti-hipertensiva e cardioprotetora é semelhante, mas o mecanismo de tolerância é diferente. Não são intercambiáveis sem ajuste e acompanhamento, mas na grande maioria dos casos o BRA resolve o problema de forma previsível.

O que esperar nos exames laboratoriais

Após iniciar inibidor da ACE, espere um aumento inicial de creatinina de até 30% nos primeiros dois meses. Isso é esperado e, em geral, não é motivo para Suspensão se não houver hipercalemia associada. Se a creatinina subir mais que 30% ou se o potássio passar de 5,5 mEq/L, aí a coisa muda de figura e você precisa reavaliar doses de outras medicações, hidratação e causa subjacente antes de continuar. O acompanhamento recomendado inclui dosagem de creatinina e potássio em 7 a 30 dias após iniciação ou aumento de dose, depois mensalmente durante os primeiros três meses e a cada três a seis meses quando estiver estável. Esse protocolo parece exagero para quem está apressado, mas evita internações por hipercalemia e lesão renal aguda que poderiam ter sido detectadas cedo. A enzima convertidora de angiotensina continua sendo um alvo terapêutico central na cardiologia e nefrologia. Os inibidores não são perfeitos, têm efeitos colaterais previsíveis e exigem monitoramento, mas quando usados com critério e com o plano de acompanhamento adequado, continuam sendo uma das classes de medicamento mais estudadas e benéficas disponíveis hoje.

Esquema del sistema renina-angiotensina. (ECA: enzima convertidora de ...
Esquema del sistema renina-angiotensina. (ECA: enzima convertidora de ...