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Lideres Da Revolucao Farroupilha

Lideres Da Revolucao Farroupilha

Os comandantes que sustentaram a república piratinha por dez anos

A Guerra dos Farrapos durou de 1835 a 1845 e envolveu uma série de comandantes militares e políticos cujas trajetórias se cruzaram de formas nem sempre óbvias. Conhecer os líderes da Revolução Farroupilha exige ir além dos manuais escolares, que tendem a resumir Bento Gonçalves ao lugar-comum do herói isolado. A realidade foi bem mais fragmentada. Minha primeira abordagem prática sobre o tema surgiu ao tentar mapear a sucessão de comando nas tropas de cavalaria gaúcha entre 1838 e 1840. O problema era que os registros de patente e os diários de campanha frequentemente divergiam. Um mesmo oficial aparecia como tenente-coronel num documento e como coronel noutra fonte. A solução que funcionou foi cruzar as folhas de ordem do dia com os processos judiciais da época, onde os nomes e graduações aparecem com muito mais precisão.

Quem foram os líderes da Revolução Farroupilha

Bento Gonçalves nasceu em 1788, na cidade de Porto Alegre, de família de origem portuguesa com terras no sertão gaúcho. Entrou para a política e acumulou mandatos na Assembleia Provincial antes da eclosão. Quando os ânimos se exaltaram em 1835, liderou o levante que tomou Porto Alegre no início de setembro. Foi proclamado presidente da República Rio-Grandense e manteve essa posição até 1845. O traço mais interessante dele não é a bandeira separatista, mas a capacidade de negociar dentro do próprio campo revolucionário, algo que muitos subestimam. David Canabarro nasceu em 1794, na região de Vacaria. Era fazendeiro e militar de carreira. Atuou fortemente na campanha da serra e teve papel decisivo na defesa do interior contra as tropas imperiais. Teve uma relação tensa com Bento Gonçalves nos anos finais da guerra, chegando a concorrer contra ele numa eleição interna em 1840. Essa disputa eleitoral dentro de um governo em guerra é um detalhe que pouco aparece nos resumos, mas mostra como a facção dominante não era uniforme. Giuseppe Garibaldi chegou ao Rio Grande do Sul em 1838, fugindo da perseguição política italiana. Tinha experiência naval e logística, não terrestre. Sua atuação mais relevante foi a organização da força naval farroupilha e o comando em operações combinadas. A famosa travessia do lago Guaíba de barco a barco, sem apoio terrestre, em fevereiro de 1839, é um dos episódios mais citados e também um dos menos compreendidos. Garibaldi não tinha infantaria suficiente para cobrir a retaguarda, então usou a água como via de comunicação e suprimento, algo arriscado mas funcional naquela geografia.

Anita Garibaldi acompanhou Giuseppe e participou de movimentos de reconhecimento e abrigo de feridos. Suas ações não foram meramente simbólicas. Em julho de 1839, durante a retirada após a batalha de Monte Belo, ela ajudou a organizar a fuga do grupo através do Rio Quaraí, em condições de frio intenso e perseguição imperial. Essa parte da narrativa costuma ser apagada nos materiais didáticos, mas existe nos relatórios médicos e nos depoimentos de sobreviventes. Antônio de Sousa Neto foi outro nome central. Economista e político, assumiu a chefia do Executivo republicano em 1840, após a renúncia de Bento Gonçalves. Sua trajetória é mais complicada de traçar porque ele transitou entre posições e, nos anos finais, teve envolvimento em negociações que alguns chamam de traição e outros de pragmatismo. A verdade é que a posição dele mudou conforme a situação militar se deteriorava. João Manoel de Lisboa atuou no campo militar, principalmente nas frentes do norte e centro do estado. Teve papel importante na defesa de cidades como Alegrete e Uruguaiana. Sua experiência de combate era maior do que a de muitos comandantes políticos, e isso se refletia na disciplina das tropas sob seu comando, algo documentado em relatórios da época.

Bento Um Dos Líderes Da Revolução Farroupilha - FDPLEARN
Bento Um Dos Líderes Da Revolução Farroupilha - FDPLEARN

Como estudar esses líderes de forma prática

O acesso às fontes originais não é trivial. Os documentos estão espalhados entre o Arquivo Público do Rio Grande do Sul, a Biblioteca Nacional e acervos universitários. A maioria está em imagem, sem busca plena. Meu método preferido é começar pelos índices alfabéticos de nomes de oficiais nos volumes da Coleção Histórica da Província, que costumam listar os processos e correspondências com datas aproximadas. A partir daí, localizo o processo específico no microfilme ou na digitalização. Um problema recorrente é a grafia variável dos sobrenomes. Sousa Neto aparece como Sotto Netto, Lisboa como Lixboa, Canabarro como Canavarro. Sem reconhecer essas variações, você perde quase metade das ocorrências numa busca por texto. Anote todas as variantes antes de começar qualquer pesquisa. Outra armadilha comum é confundir fontes primárias com interpretações posteriores. Livros publicados nas décadas de 1930 a 1950, como os de João Guilherme de Ataide e Augusto Meyer, têm valor histórico enorme, mas carrego um viés ideológico evidente. Use-os com leitura crítica, sempre confrontando com os documentos da época.

O que funciona e o que falha

Se o objetivo é montar um quadro geral dos líderes, um fluxograma de sucessão política e militar resolve rápido. Se quiser entender as decisões de campo, ai a coisa fica difícil. As ordens de serviço originais raramente explicam o porquê, apenas o quê. Esse vazio é frustrante, mas constante em conflitos do século XIX. Também é preciso reconhecer que a reconstrução biográfica precisa de ajustes. Muitos dos registros pessoais são incompletos ou contraditórios. Não existe uma biografia definitiva de Garibaldi na Farroupilha que satisfaça todos os critérios. A versão italiana é diferente da brasileira, e ambas omitem aspectos importantes.

Alternativas quando as fontes primárias não bastam

Em certos casos, como para entender a formação política de Bento Gonçalves antes de 1835, não há documentos suficientes. Aí recorri a jornais da época, como a Gazeta Militar e publicações ligadas ao Partido Legalista, que trazem informações sobre a atividade política pré-revolucionária. Não são neutros, mas oferecem dados que outros acervos não entregam. Para os aspectos militares, os relatos de soldados comuns, coletados em processos de pedidos de pensão e indenizações de guerra, oferecem uma perspectiva diferente da dos comandantes. Vale a pena consultar.

A Verdadeira História por Trás da Revolução Farroupilha
A Verdadeira História por Trás da Revolução Farroupilha

O Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul disponibiliza parte do acervo digitalmente. A biblioteca da UFRGS também tem digitais importantes. A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional concentra jornais da província e do período. Nenhum desses repositórios tem índice perfeito, mas juntos cobrem a maior parte do necessário.