Locomoção Dos Protozoários
Como observar e classificar os tipos de locomoção dos protozoários na prática
A primeira coisa que você aprende ao pegar um porta-objetos com amostra de água de tanque ou lama é que os protozoários nunca param de se mover. Isso é útil para a observação porque, se o organismo estiver imóveis, provavelmente está morto ou desidratado, e seu registro de dados já começa errado. Existem quatro mecanismos básicos de locomoção nos protozoários, e cada um deles segue uma lógica física diferente. Entender isso economiza tempo no laboratório, principalmente quando você precisa identificar rapidamente a espécie sob microscópio óptico comum.
Locomoção dos protozoários: os mecanismos em detalhes
O primeiro mecanismo é o movimento ameboide. A ameba usa pseudópodes, que são projeções citoplasmáticas que se formam pela polimerização da actina no citoplasma gel (interior celular) e sua conversão para estado sol (mais fluido). O citoplasma flui para frente, arrastando a célula. Você consegue ver claramente essa mudança de viscosidade se focar no interior da ameba: a parte central parece mais granulada e lenta, enquanto a periferia se move com mais fluidez. A velocidade típica de uma ameba tipo Amoeba proteus gira em torno de 0,5 a 2 micrômetros por segundo. Lenta, mas constante. O segundo mecanismo envolve flagelos. Estruturas longas e finas, geralmente duas a oito por célula, que se movem como chicotes. A cinemática do flagelo protozoário não é um movimento ondulatório uniforme. Ela apresenta batidos assimétricos: uma fase potente em que o flagelo se curva com amplitude maior e uma fase de recuperação mais flexível. Isso gera propulsão. Protozoários como Euglena e Trypanosoma se deslocam assim. A velocidade aqui é bem maior: 20 a 100 micrômetros por segundo, dependendo do comprimento do flagelo e da viscosidade do meio. O terceiro mecanismo são os cílios. São estruturas curtas, numerosas (centenas a milhares por célula), e todas batem de forma coordenada. Cada cílio executa um movimento de braçada eficiente e um de retorno. A braçada é rígida e empurra o fluido para trás, o que projeta a célula para frente. A volta é flexível e minimiza a força contrária. Esse batimento coordenado é controlado por sinais eletroquímicos que se propagam pela membrana ciliada. O resultado é um movimento rápido e diretivo. Paramecium é o exemplo clássico, alcançando velocidades de 1000 micrômetros por segundo, ou 1 milímetro por segundo. Sim, um Paramecium viaja o equivalente ao seu comprimento corporal várias vezes a cada segundo.
O quarto tipo é menos conhecido e ocorre em esporozoários como os Plasmodium. Eles exibem um movimento de contorção gliding, dependente de um complexo de proteínas motoras localizado na face ventral do protozoário. Esse mecanismo permite que o parasita se deslize sobre superfícies sem flagelos ou cílios aparentes. É lento, da ordem de 1 a 10 micrômetros por segundo, mas extremamente eficiente para invasão de tecidos. Na prática, identificar qual mecanismo está em uso requer atenção a três variáveis: a forma do corpo, a presença de estruturas locomotoras visíveis e o padrão de movimento. Uma célula arredondada que muda de forma constantemente e se arrasta é ameboide. Uma célula com formato mais definido e uma cauda longa que oscila é flagelada. Uma célula oval coberta de uma "pelúcia" vibrante é ciliada. Se o organismo se move sem mudar de forma aparente e sem estruturas externas visíveis, pode ser gliding. Aqui vai um problema que eu encontrei várias vezes: ao observar Vorticella sob o microscópio, eu inicialmente classificava como ciliado porque ela possui um círculo de cílios próximo à boca. Mas a locomoção dela é diferente. Ela não nada. Ela se ancora por um pedúnculo contrátil e se movimenta retraindo e estendendo esse pedúnculo, que contém miofibrilas semelhantes a actomiosina. O movimento total pode ser rápido, mas não é natação. É contração celular. Muitos manuais de laboratório iniciante cometem esse erro de classificação. A correção é verificar a presença do pedúnculo na base e testar se a célula se desloca pelo espaço ou apenas se dobra sobre si mesma.

Outro detalhe que poucos mencionam: a viscosidade do meio altera completamente a eficácia de cada mecanismo. Flagelos e cílios dependem de forças inerciais baixas, o que significa que vivem em um regime de baixo número de Reynolds, onde a viscosidade domina sobre a inércia. Para um protozoário, a água parece tão densa quanto mel para nós. Isso faz com que, se você adicionar glicerina à lamínula, os organismos ciliados param quase imediatamente, enquanto os ameboides continuam se movendo porque o mecanismo de flusso citoplasmático não depende de empuxo externo da mesma forma. Use isso como teste prático para diferenciação em campo. Para registrar seus observações, o método mais confiável é o de confinamento leve. Coloque uma gota da amostra entre o porta-objetos e a lamínula, e preencha as bordas com vaselina ou parafina derretida para evitar evaporação. Isso estabiliza a amostra por 20 a 30 minutos sem imobilizar os protozoários. Adicionar fibras de algodão ou cabelo humano à gota antes de fechar o preparo também ajuda a conter movimentos bruscos sem prejudicar a locomoção normal. Eu costumo usar três a cinco fibras dispersas aleatoriamente, o que reduz o campo de visão dos organismos em cerca de 40%, suficiente para acompanhar sem estressá-los. Um ponto importante sobre limites desse método: a observação em luz transmitida comum tem dificuldade em distinguir cílios de flagelos quando o aumento é inferior a 400x. Abaixo disso, você verá movimento mas não conseguirá diferenciar o mecanismo. Acima de 1000x com imersão em óleo, a resolução melhora, mas o campo visual fica tão pequeno que acompanhar organismos rápidos se torna frustrante. O compromisso ideal para identificação de locomoção fica entre 400x e 600x. Numa configuração desses fatores, cílios aparecem como uma zona vibratória uniforme, flagelos como linhas ondulantes distintas, e pseudópodes como expansões citoplasmáticas claras.
Se você precisa de documentação mais permanente, fotografia de vídeo a 30 quadros por segundo com aumento de 400x captura suficiente informação para análise posterior. Gravar por pelo menos 10 segundos por indivíduo permite classificar com segurança o tipo de locomoção em mais de 90% dos casos. A única exceção são esporozoários com gliding, que exigem pelo menos 30 segundos de gravação contínua devido à lentidão do movimento.
Galeria
-
Visão geral abrangente dos protozoários e das doenças causadas por eles ... -
Ciências Biológicas: Protozoários -
Protozoários: o que são, características, tipos - Brasil Escola -
PPT - PROTOZOÁRIOS PowerPoint Presentation, free download - ID:6171448