Movimento De Reconceituação Do Serviço Social
O que aconteceu com o Serviço Social no Brasil entre os anos 60 e 80
O movimento de reconceituação do serviço social foi um conjunto de debates intensos que atravessou a formação e a prática profissional no Brasil, especialmente entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1980. Não foi um evento único com data de início e fim definidos. Foi uma sucessão de encontros, publicações, polêmicas e reorganizações teórico-metodológicas que transformaram radicalmente como o serviço social era pensado e exercido no país. No cerne da questão estava uma pergunta básica que muitos profissionais não gostam de enfrentar: qual é o objeto do serviço social e qual é o papel político desse profissional? As respostas que surgiram naquele período ainda estruturam as correntes que existem hoje. Antes do movimento, o serviço social brasileiro estava fortemente marcado pela influência da Escola de Serviço Social da Universidade de São Paulo (essencialmente a vertente "neobrabantineira"), que pegava os conceitos e os métodos desenvolvidos nos Estados Unidos — particularmente a escola de NYLA (New York School of Social Work) — e os adaptava para a realidade brasileira. O foco era técnico, assistencialista e orientado para a integração dos beneficiários às estruturas sociais existentes, sem questionar essas estruturas.
O movimento de reconceituação do serviço social surgiu como reação a isso. Grupos de profissionais e acadêmicos começaram a questionar se fazer assistência social significava apenas aplacar sofrimentos individuais sem tocar nas causas estruturais da desigualdade. A ditadura militar (1964-1985) criou um contexto perverso: por um lado, censurava e perseguia críticas; por outro, a repressão tornou urgente repensar o papel do profissional diante de uma realidade de exclusão violenta. Muitos servicosociais estavam inseridos em órgãos públicos e ONGs que lidavam diretamente com os efeitos da pobreza, da migração forçada e da falta de direitos. A corrente crítica, que acabou predominando nos debates acadêmicos e na maioria dos conselhos profissionais nas décadas seguintes, propunha que o serviço social deveria ter uma postura política explícita. O objeto não era o indivíduo desamparado, mas as relações sociais de trabalho e a questão social como expressão das contradições do capitalismo. Isso mudou completamente a forma como a profissão entendia sua intervenção.
Como o movimento se organizou na prática
O que mais marcou aquele período foram os grandes encontros nacionais e regionais da categoria. O Encontro Nacional de Serviços Sociais em 1969, realizado em Brasília, é frequentemente citado como um ponto de inflexão. Nele, profissionais de diferentes regiões apresentaram experiências práticas que já desafiavam o modelo tradicional, mesmo antes de haver um embasamento teórico consolidado. Outro momento importante foi a criação da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) em 1976, que se tornou o principal espaço de legitimação da corrente crítica. As publicações da revista Trabalho e Sociedade, que nasceu ligada a esse meio, foram fundamentais para circular as novas ideias. No campo da prática, o que se viu foi um deslocamento: profissionais passaram a atuar não apenas em instituições assistenciais tradicionais, mas em movimentos sociais, sindicatos, cooperativas e órgãos de formulação de políticas públicas. A ideia era que o serviço social não poderia ser neutro. A neutralidade, nessa leitura, era uma escolha política que sustentava o status quo.

Os três eixos que definiram a reconceituação
Posicionar-se politicamente. A profissão deveria assumir explicitamente sua dimensão política. Não se tratava de filiar-se a partidos, mas de reconhecer que toda intervenção em serviço social ocorre em um campo de tensões de classe. Valorizar a formação universitária. O curso de graduação em serviço social deveria ser rigoroso, com sólida base teórica em ciências sociais, e não apenas treinamento técnico para execução de tarefas assistenciais. Isso colocou a universidade como espaço central de disputa de ideias. Reconhecer a questão social como objeto. A questão social não é um conjunto de problemas isolados de indivíduos incapazes. É a manifestação das contradições do modo de produção capitalista, que produz exclusão de forma estrutural e permanente. O serviço social, portanto, trabalha com as consequências sociais da violência estrutural do capital, não com "vícios" ou "carências" individuais.
O que isso mudou na formação e no conselho profissional
Após a reconceituação, os currículos dos cursos de serviço social no Brasil passaram a incluir obrigatoriamente disciplinas de teoria social, metodologia da pesquisa, história do pensamento social e fundamentos filosóficos. A prática profissional passou a ser entendida como intervenção mediada pela teoria, não como aplicação de receitas prontas. O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), fundado em 1965, teve seu papel transformado ao longo do movimento. Inicialmente mais voltado para a regulamentação técnica e o controle disciplinar, o conselho passou a discutir e emitir pareceres sobre questões éticas e políticas da profissão, como a posição diante de cortes orçamentários em políticas públicas ou a utilização de recursos públicos para fins assistencialistas sem transferência de renda condicionada. Um detalhe que poucos cursos enfatizam é que a reconceituação não eliminou correntes diferentes. Sempre houve e há profissionais que mantêm posições mais tecnicistas ou liberal-associais. O que o movimento fez foi colocar a corrente crítica como hegemônica nos espaços de formação e nos principais documentos de referência da profissão, como o Código de Ética de 1993 e as Diretrizes Curriculares nacionais subsequentes.
movimento de reconceituação do serviço social: um problema real que encontrei no campo
Trabalhei com um caso que ilustra bem a tensão que permanece até hoje. Uma assistente social em um município do interior de São Paulo precisava elaborar um projeto de intervenção para uma comunidade onde famílias estavam sendo despejadas por uma obra de infraestrutura. A prefeitura queria que ela trabalhasse a "adaptação emocional" das famílias ao reassentamento, num enfoque individualizado clássico. A corrente de reconceituação dizia claramente que aquilo era uma questão de direito à moradia e de disputa territorial, não um problema de ajuste psicológico. O workaround que usei foi convocar uma reunião com a equipe multidisciplinar, explicar o enquadramento da questão social e propor que o projeto fosse reorientado para mapear os atores políticos envolvidos, identificar violações de direitos e articular com a defensoria pública e movimentos de luta urbana. Isso levou três semanas a mais do que o prazo original, mas evitou que o trabalho virasse apenas um suporte humanitário para uma decisão tomada sem participação popular. O resultado foi que o município teve que abrir um processo de audiências públicas que nunca teria ocorrido daquela forma.

Pontos cegos e limitações do movimento
É honesto dizer que a reconceituação também trouxe problemas. A forte ênfase na dimensão política e na crítica estrutural, em alguns casos, levou a uma valorização excessiva do discurso teórico em detrimento da análise concreta da prática cotidiana. Já vi profissionais que sabiam citar Gorz, Marini e Boneu, mas não conseguiam lidar com uma situação real de negligência infantil porque a abordagem crítica não oferece ferramentas metodológicas tão claras para intervenções individuais. Outra limitação é que o movimento operou majoritariamente no eixo Sul-Sudeste do Brasil, nas universidades e nos grandes centros profissionais. A realidade do serviço social no Nordeste, na Amazônia e em áreas rurais tinha demandas muito específicas que nem sempre encontraram ressonância nos debates hegemônicos. Isso gerou, em algumas regiões, uma sensação de que a teoria importada de São Paulo não traduzia o que acontecia no dia a dia. Também há o risco de a posição crítica se tornar uma ortodoxia de gabinete. Quando o debate vira repetição de categorias sem confronto com a prática, o serviço social perde capacidade de inovação. A reconceituação foi viva enquanto foi capaz de se transformar. O perigo é petrificar o que foi aprendido.
Como isso se aplica hoje
Se você está estudando serviço social ou atuando na área, o movimento de reconceituação do serviço social continua sendo o referencial central para qualquer questão que envolva ética profissional, elaboração de projetos sociais, análise de políticas públicas ou defesa de posições contra o assistencialismo clientelista. As diretrizes curriculares do MEC, os editais de concursos para cargos federais e estaduais e os códigos de ética atuais são construídos sobre as conquistas daquele período. Para quem quer se aprofundar, os textos fundadores estão disponíveis em antologias como "Serviço Social: direito social e competências" (Org. Paiva e other colleagues, Cortez Editora) e nas coletâneas da ABEPSS. A leitura direta de autores como Beatriz Bornay, Heloísa Buarque de Almeida, Maria Célia de Paula e Vânia de Andrade permite acompanhar a evolução interna do debate, que não foi linear e contou com autocríticas significativas ao longo das décadas. O que fica é que o serviço social brasileiro ganhou, graças a esse movimento, uma capacidade de autoquestionamento que poucas profissões no país possuem. Isso não resolve todos os problemas. A precarização do trabalho, a pressão por produtividade e a fragmentação das políticas públicas continuam existindo. Mas saber de onde veio a profissão ajuda a decidir o que fazer com ela.
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