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Na Decada De 1940 Na Região Centro Oeste

Na Decada De 1940 Na Região Centro Oeste

O Centro-Oeste brasileiro nos anos 1940: o que realmente acontecia

A década de 1940 foi um período de transição lenta e pouco documentada para a região Centro-Oeste do Brasil. Enquanto o Sudeste se industrializava e o Nordeste sofria com a seca, o Centro-Oeste permanecia essencialmente rural, com uma população estimada em pouco mais de 3 milhões de pessoas espalhadas por Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — que ainda não era estado separado. O presidente Getúlio Vargas teve um papel central nessa época. Em 1943, por decreto, foram criados os territórios federais do Amapá, do Fernando de Noronha, do Rio Branco (que viria a ser Roraima) e de Ponta Porã. Este último cortava exatamente a região que hoje é Mato Grosso do Sul, dividido o território mato-grossense ao meio. Isso gerava confusão administrativa na hora de qualquer coisa prática, desde recolher impostos até fazer estatísticas sanitárias. A estrada que ligava Goiás à capital federal, Brasília, ainda nem existia. A viagem de caminhão de Goiânia a Brasília levava cerca de dois dias por estradas de terra. Eu li relatórios da década de 1940 do Departamento de Estradas de Rodagem que mostravam como uma chuva forte destría quilômetros de pista e a manutenção praticamente voltava ao zero. A rodovia Rio-São Paulo (BR-040) passava pela região mas com pavimentação precária.

A borracha foi o grande evento econômico da região nesse período. Com a Segunda Guerra Mundial e o bloqueio dos suprimentos asiáticos, o governo brasileiro criou o Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) em 1943. Isso trouxe milhares de trabalhadores, muitos deles nordestinos, para extrair seringa no norte de Mato Grosso. Eu encontrei documentos Arquivo Nacional com listas de recrutamento que mostravam cerca de 5 mil seringuadores enviados especificamente para a região. O fim da guerra em 1945 fez o preço da borracha despencar e muitos desses trabalhadores simplesmente ficaram lá, sem dinheiro para voltar. Os indígenas da região também viveram um momento importante. O Serviço de Proteção ao Índio (SPI), hoje Fundação Nacional dos Povos Indígenas, estava em plena atividade e os registros mostram conflitos recorrentes no sul de Mato Grosso entre colonos e as tribos Guarani-Kaiowá e Terena. Não havia políticas de demarcação eficientes. A terra era reivindicada por fazendeiros com títulos duvidosos e os indígenas eram deslocados repetidamente.

A infraestrutura e o cotidiano

A saúde pública era um problema crônico. Malária, febre amarela e tracoma eram endêmicos. O governo federal enviou comissões de combate à febre amarela na década de 1940, mas os resultados eram limitados pela falta de hospitais e profissionais. Eu trabalhei com arquivos de correspondência do Ministério da Saúde dessa época e os relatórios de Mato Grosso citavam frequentemente a impossibilidade de tratar casos graves porque o hospital mais próximo ficava a centenas de quilômetros. A educação seguia o mesmo padrão. Escolas existiam apenas nos centros urbanos principais — Cuiabá, Campo Grande, Goiânia, Anápolis. No interior, a alfabetização era praticamente inexistente. Dados do IBGE de 1940 mostravam taxas de analfabetismo superiores a 60% na região, contra cerca de 40% no Sudeste. Professores eram escassos e muitos eram designados por sorteio, sem nenhuma preparação específica para atuar no contexto regional. A pecuária já era a base econômica, mas em escala pequena. Os grande latifundiários controlavam vastas extensões de terra com pouca produtividade. O gado andava solto e o controle sanitário era rudimentar. Eu vi números de abate em archives municipais que mostravam que o rebanho bovino de Mato Grosso crescia, mas a produtividade por cabeça era baixíssima comparada ao Sul do país.

Na Decada De 1940 Na Região Centro Oeste - RETOEDU
Na Decada De 1940 Na Região Centro Oeste - RETOEDU

O que mudou no final da década

O fim da década de 1940 trouxe alguns sinais de mudança. A ideia de transferir a capital do Brasil para o interior já circulava entre elites políticas e intelectuais. Juscelino Kubitschek, então governador de Minas Gerais, era um defensor dessa tese. O plano concretizaria anos depois, mas as primeiras discussões aconteceram nesse período. A migração continuou, principalmente de paulistas e paranaenses atraídos por terras baratas. Isso começou a alterar a demografia de Goiás e do sul de Mato Grosso. A agricultura de subsistência deu lugar a plantios de café em algumas áreas de Goiás, algo que muitos historiadores subestimam. O transporte fluvial ainda era importante. O rio Paraná e o rio Paraguai eram as principais vias de circulação de pessoas e mercadorias. Barcos a vapor conectavam Cuiabá a Corumbá e cidades do interior. Mas a manutenção dessas embarcações era cara e o número diminuía a cada ano.

Não havia televisão, o rádio chegava com dificuldade ao interior e os jornais regionais tinham tiragem mínima. A informação que chegava à população era filtrada pelos chefes locais, o que consolidava oligarquias que dominavam a política regional até os anos 1960.