Por Isso É Conjunção
Por que a gente se confunde com "por isso" e como resolver isso de uma vez
Todo mundo já travou na hora de escrever e não soube se usava "por isso", "logo" ou "por conseguinte". A verdade é que a maioria das pessoas trata essas expressões como sinônimos perfeitos, mas não são. O problema aparece quando você tenta aplicar a mesma lógica em textos formais, concursos ou redações do ENEM e acaba cometendo erros que parecem pequenos mas pesam na nota. Achei que dominava o assunto até precisar corrigir um artigo técnico para um colega. Ele havia escrito trinta vezes "por isso" no mesmo parágrafo, substituindo todo conectivo que poderia existir. Meu cérebro nem percebeu o erro no início. Só percebi quando li em voz alta e comecei a me sentir como se estivesse ouvindo alguém falando repetidamente "então" sem parar. Achei graça depois, mas na hora foi frustrante.
por isso é conjunção e não apenas uma expressão qualquer
O primeiro ponto que precisa ficar claro é que por isso é conjunção coordenativa explicativa, mais especificamente conclusiva. Ela liga duas orações e indica uma consequência direta da ação da oração anterior. Não é subordinativa. Não introduz complemento nominal. É simplesmente uma forma de dizer que o que veio depois é resultado do que veio antes. Muita gente confunde porque "por isso" pode ser analisado de duas formas dependendo do contexto. Quando funciona como pronome demonstrativo com valor causal, tipo "por esse motivo", aí não é conjunção. Mas quando funciona como elemento de ligação entre duas orações coordenadas, aí sim é conjunção conclusiva. A diferença é sutil e causa confusão mesmo em falantes nativos. No meu caso, a virada de chave aconteceu quando comecei a aplicar a prova da substituição. Se você consegue trocar "por isso" por "logo", "portanto", "consequentemente" ou "assim" mantendo o sentido original, então está diante de uma conjunção. Se a substituição soa estranha ou muda o sentido, provavelmente não é.
Como identificar na prática quando usar cada conectivo
Vou mostrar o que funciona pra mim. Quando estou revisando um texto, faço o seguinte: separo as orações em linhas numeradas e vejo qual a relação lógica entre elas. Se a segunda oração é consequência natural da primeira, posso usar "por isso". Se é uma explicação ou causa, preciso de "porque". Se é uma oposição, aí é "mas" ou "contudo". O erro mais comum que eu vejo é usar "por isso" onde o correto seria "porque". Alguém escreve "Não fui à festa, por isso estava cansado". Isso está errado. A segunda oração não é consequência da primeira no sentido causal. O correto seria "Não fui à festa porque estava cansado". Perceba a diferença? Uma mostra efeito, a outra mostra causa. Outro erro frequente é a colocação. "Por isso" pode vir no início da oração ou no meio, mas nunca deve ser isolado por vírgulas de forma arbitrária. Se você colocar vírgulas do lado de tudo, o texto vira uma colcha de retalhos. Use vírgula antes de "por isso" quando ele iniciar uma oração coordenada, mas evite vírgulas depois dele a menos que haja um aposto ou interrupção necessária.

Dei uma dica que não está em nenhum manual: leia o período em voz alta. Se você precisa fazer uma pausa natural antes de "por isso", provavelmente a vírgula está no lugar certo. Se não há pausa alguma, talvez o conectivo esteja sobrando ou mal posicionado. Essa técnica caseira me salvou em revisões apressadas onde o tempo não permitia consultar gramáticas inteiras.
Pegadinhas que quase ninguém menciona
A primeira pegadinha é a ambiguidade. "Por isso" pode, em certos contextos, funcionar como locução adverbial de causa. Imagine a frase: "Ele não pagou, por isso foi processado". Pode-se interpretar como "por esse motivo" (causal) ou como "portanto" (conclusivo). Nesse caso, o contexto deve esclarecer. Se a interpretação causal fizer mais sentido, considere substituir por "por esse motivo" para evitar dúvida. A segunda pegadinha é mais técnica. Em textos jurídicos e acadêmicos, muitos professores e editores preferem "logos", "portanto" ou "consequentemente" em vez de "por isso". Não que esteja errado usar "por isso", mas esses alternativos soam mais formais e têm tradição em registros escritos mais técnicos. Se você está produzindo um TCC, artigo científico ou petição jurídica, vale adaptar o registro. Tem ainda o caso dos iniciantes que acham que "por isso" é só para linguagem falada. Errado. Pode ser usado em escrita formal, desde que o contexto permita. O problema é que alguns gramáticos mais puristas ainda levantam a sobrancelha. Eu particularmente acho isso exagero, mas conheço revisores que realmente dão essa reação. O bom é saber dessa corrente e se preparar.
Quando "por isso" simplesmente não funciona
Não adianta forçar. Se a relação entre as orações não é de consequência, nenhuma conjunção do tipo vai resolver. "Por isso" não serve para adicionar informação, nem para contradizer, nem para estabelecer condição. Se você tem uma oração que complementa outra, procure "que" ou "se". Se precisa de contraste, use "embora", "ainda que", "contudo". Se é condição, "se" e "caso" são mais indicados. Também não recomendo usar "por isso" repetidamente no mesmo parágrafo. Já vi textos em que o conectivo aparecia três vezes seguidas. Isso cansa a leitura e demonstra repertório limitado de conectivos. Um parágrafo bem construído varia entre "portanto", "logo", "assim", "consequentemente" e, quando apropriado, "por isso". A variação é o que mostra domínio da língua.

Exercício rápido para fixar
Se você quer treinar, pegue um texto qualquer e circule todas as vírgulas que antecedem "por isso". Verifique se fazem sentido. Depois, substitua cada "por isso" por "portanto" e veja se o sentido se mantém. Se mantiver, estava correto. Se não mantiver, precisa revisar a relação lógica entre as orações. Esse exercício leva cerca de dez minutos para um texto de duas páginas e costuma revelar erros que passam despercebidos na primeira leitura. Eu fiz isso na minha revisão daquele artigo e encontrei cinco casos de "por isso" mal empregado. Cinco em vinte linhas. Foi um choque, mas também foi útil. Se quiser se aprofundar, a obra "Nova Gramática do Português Contemporâneo" de Celso Cunha e Carlos Henrique da Cunha a referência mais confiável que existe sobre o tema. Ela trata "por isso" de forma clara e com exemplos práticos. Não é leitura obrigatória, mas é boa consulta.
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