Substantivo Que Não São Derivados De Adjetivos
Como identificar e classificar substantivos primitivos e não-derivados em português
A maioria dos alunos de gramática portuguesa aprende rapidamente que muitos substantivos nascem de adjetivos por meio de sufixação. Beleza vem de belo, riqueza de rico, tristeza de triste. Isso é feito com -eza ou -idade na maior parte das vezse funciona. Mas há uma quantidade significativa de substantivos que não passam por esse processo. Eles simplesmente existem como radicais autônomos, ou vêm de verbos, ou são empréstimos, ou são formas antigas que perderam o adjetivo correspondente no português moderno. Quando eu comecei a montar listas de palavras para um projeto de lexicografia interna, a primeira armadilha foi assumir que todo substantivo terminado em -ção ou -dade tinha origem adjetival. Não tem. A palavra "ação" não vem de nenhum adjetivo em português. Vem do latim "actio", do verbo "agere". O mesmo vale para "nação", "oração", "oração". Esses substantivos são deverbiais, não deadjetivais. Eu gastou semanas refazendo o banco de dados porque o algoritmo de classificação inicial estava pegando tudo que terminava em -ção como derivado de adjetivo automaticamente.
Substantivo que não são derivados de adjetivos
A classificação prática funciona assim. Você pega um substantivo e pergunta: existe um adjetivo do qual ele possa ter vindo? Se a resposta for sim e houver evidência etimológica, é deadjetival. Se não, cai em uma das outras categorias. Aqui estão os principais grupos. Substantivos primitivos. São palavras que não vieram de nenhuma outra palavra portuguesa. "Árvore", "pedra", "rio", "fogo", "terra", "casa". Não há adjetivo "pedroso" sendo a fonte de "pedra". A palavra existe no léxico como raiz. Substantivos derived from verbs. Essa categoria é enorme e muito subestimada. "Leitura" vem de "ler", não de nenhum adjetivo. "Corrida" vem de "correr". "Abertura" vem de "abrir". "Espera" vem de "esperar". O processo é a derivação regressiva ou a nominalização verbal com sufixo -mento, -dura, -ÇÃO, entre outros. Muitos desses sufixos são originalmente nominais, mas a fonte é o verbo, não o adjetivo.
Empréstimos linguísticos. "Computer", "software", "marketing", "job", "sanduíche", "bufê". Essas palavras entraram no português e viraram substantivos sem passar por nenhuma relação com o adjetivo equivalente na língua de origem ou na portuguesa. "Sanduíche" vem do conde de Sandwich em inglês, não de nenhum adjetivo português. Substantivos com perda do adjetivo-fonte. Às vezes o adjetivo existiu e caiu em desuso. "Carruagem" poderia ser associada a "carro", mas "carro" é um substantivo, não um adjetivo. A palavra "veludo" tem relação com "velo" (lã), mas "velo" não é mais usado como adjetivo ativo. Nesses casos a classificação fica ambígua e depende da análise etimológica, não da sincronia. O erro mais comum que eu vejo gente cometer é confundir substantivos abstractos de resultado com deadjetivais. "Saudade" não vem de "sadio" ou de nenhum adjetivo. Vem do latim "solidare", relacionado com ideia de preenchimento, plenitude. É um substantivo verbal, não adjectival. Já "miseria" vem de "miserável", que é adjetivo, então essa sim é deadjetival. A fronteira entre as duas categorias não é sempre óbvia só olhando a forma.

Uma dica prática que funciona bem: quando você tiver dúvida, consulte o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa do José Pedro Machado ou o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Ângelo de Battistella. Essas obras mostram a cadeia de formação. Se o verbete indicar que a palavra nasceu do latim "NATIO" ou do verbo "NASCER", você descarta a hipótese deadjetival na hora. Outro ponto que merece atenção. Alguns sufixos são neutros em termos de classe de origem. -OR pode vir de verbo ("ator" de "atuar") ou aparecer em palavras que já são substantivos fundamentais ("amor" vem do latim "AMOR", sem adjetivo intermediário). -AL também é flexível: "jardim" tem "jardineiro" como derivado, mas "jardim" em si não veio de nenhum adjetivo. O problema real é quando você precisa processar isso automaticamente. Eu testei três abordagens. A primeira era regex pura baseada em sufixos. Funcionava para os casos óbvios mas errava feio nos casos irregulares, com taxa de erro de cerca de 40 por cento. A segunda usava embeddings e classificador, mas precisava de milhares de exemplos anotados manualmente. A terceira solução foi híbrida: um dicionário etimológico consultável via API mais uma camada de regra para os casos regulares. O tempo de processamento de uma lista de mil substantivos caiu de umas três horas manuais para cerca de quinze minutos com esse pipeline.
Se você está começando agora e quer praticar, pegue qualquer texto de jornal e extraia todos os substantivos. Para cada um, tente identificar se tem adjetivo-fonte. Anote os que não têm. O número de falsos positivos que você vai encontrar vai te ensinar mais do que qualquer regra decorada. A maioria das pessoas acha que conhece o assunto até tentar classificar "temperamento", "governo" ou "pensamento" e descobrir que a explicação textbook não cobre esses casos. A parte chata é que não existe regra única que cubra tudo. O português tem camadas de formação lexical que se sobrepõem. Um substantivo pode ter origem latina direta, passar por adaptação fonética, ter um adjetivo derivado posteriormente por uso figurado, e ainda assim ser classificado como primitivo na synchronia atual. Nesses casos a resposta honesta é que a classificação depende do nível de análise que você escolheu adotar. Para quem trabalha com processamento de linguagem ou ensino de gramática, o essencial é ter clareza sobre qual critério está usando. Critério morfológico, etimológico ou distribucional? Eles frequentemente dão respostas diferentes para a mesma palavra. Eu recomendo etimológico quando a precisão importa, e distribucional quando o volume é grande e uma margem de erro de dez a quinze por cento é aceitável.
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