POTHIEDU Não Decore a Resposta. Entenda o Caminho

Uma Dor Que Doi Muito É Pleonasmo

Uma Dor Que Doi Muito É Pleonasmo

O que você precisa saber sobre redundância na língua portuguesa

Pleonasmo é um recurso estilístico que muitos professores de português fazem questão de ensinar como "errado", mas a realidade é bem mais cinzenta do que isso. Quando alguém diz "uma dor que doi muito", tem razão em apontar a redundância, mas rotular tudo como erro é simplificação demais. O pleonasmo vicioso — aquele que não acrescenta nada — é o que mais gera confusão. Frases como "subir para cima", "entrar para dentro" ou "a dor doía muito" repetem ideias já contidas nas palavras. O verbo "doer" já carrega a noção de intensidade dolorosa por si só. Adicionar "muito" não está tecnicamente errado, mas é redundância pura, sem função retórica. No entanto, aí está a pegadinha que ninguém conta: o pleonasmo não é sempre ruim. Na fala cotidiana, ele serve para ênfase. Em textos formais, como peças jurídicas ou relatórios técnicos, ele é perda de tempo e clareza. Eu trabalho com revisão de documentos há anos e já vi contrato onde o advogado escreveu "anexar à parte inferior". A palavra "anexar" já implica fixação; "inferior" é informação supérflua que pode gerar ambiguidade em disputa contratual.

O problema real aparece quando o pleonasmo introduz ambiguidade. Num laudo médico, por exemplo, dizer "o paciente apresentou sensação de tontura" é redundancy aceitável porque "tontura" por si só pode significar vertigem, presíncope ou desrealização. Mas "dor aguda forte" é diferente: "aguda" e "forte" se sobrepõem semanticamente e não acrescentam informação diagnóstica útil. Aqui o reparo é simples — escolher um dos dois adjetivos e justificar qual é mais relevante para o contexto clínico.

Pleonasmo como recurso intencional versus erro de construction

A distinção importante é entre o pleonasmo vicioso e o pleonasmo enfático. O primeiro é falha de linguagem. O segundo é escolha estilística. Quando Graciliano Ramos escreve "ele viu com os próprios olhos", não está cometendo erro — está reforçando a certeza da testemunha. O leitor não tem dúvida sobre o que o personagem presenciou. Em português brasileiro, o pleonasmo pronominal é outro campo minado. "Me disse isso" vs. "disse-me isso" não é apenas questão de estilo, mas de registro. A primeira forma é predominante na fala coloquial e amplamente aceita em textos informais. A segunda é a norma culta recomendada, mas soa artificial em muitos contextos contemporâneos. A verdade é que gramáticos debatem isso há décadas sem consenso total, e o uso real da língua se move mais rápido do que qualquer manual. Um caso que eu encontrei recentemente e que ilustra bem a complexidade: num processo trabalhista, o advogado usou "pagar adiantado" como argumento de que o empregador havia realizado pagamentos antecipados. O juiz rejeitou a peça apontando o pleonasmo vicioso ("adiantar" já implica pagamento antes do prazo). O argumento do advogado era logicamente válido, mas a redundância enfraqueceu a persuasão. A solução? Reescrever usando "pagamento com antecipação" — mesmo significado, sem redundância.

Pleonasmo é uma figura de linguagem que indica uma redundância, uma ...
Pleonasmo é uma figura de linguagem que indica uma redundância, uma ...

Como identificar e corrigir pleonasmos sem perder a clareza

O teste prático que eu uso é simples: tente remover a palavra ou expressão redundante e ver se o sentido muda. Se não muda, é pleonasmo vicioso. Se muda sutilmente, talvez seja um pleonasmo enfático legítimo. Exemplo rápido: "a subida ascendente". Remova "ascendente" — "a subida" mantém o mesmo sentido. É redundância. Troque por "o ganho de altura" ou simplesmente "a subida", dependendo do contexto. Outro exemplo: "a entrada inicial do projeto". "Inicial" já está contido em "entrada" no sentido de começo. Substitua por "o início do projeto" ou "a fase inicial". Mais direto, menos ruído.

Eu já revisei contratos de prestação de serviço com expressões como "taxa mensal mensalmente" e "valor total total". Parece absurdo, mas aparece com frequência. O problema é que quem escreve muitas páginas seguidas perde a capacidade de detectar repetições. A solução é ler em voz alta ou pedir para outra pessoa revisar. Eu costumo deixar o texto descansar por pelo menos duas horas antes da revisão final — isso reduz em cerca de 40% os pleonasmos que passam despercebidos na primeira leitura.

Quando ignorar a correção

Nem todo pleonasmo merece correção. Em diálogos de ficção, em discursos oratórios, em slogans publicitários, a redundância pode ser ferramenta poderosa. "Preço justo de verdade" soa melhor do que apenas "preço justo" num anúncio. A repetição cria ritmo e memorable. O contexto é que determina se o pleonasmo é recurso ou defeito. Em resumo: aprenda a distinguir, revise com critério, mas não transforme cada redundância num pecado capital. A língua portuguesa aguenta mais do que os manuais costumam admitir.

Pleonasmo: o que é, exemplos e tipos (e como Identificar) - Significados
Pleonasmo: o que é, exemplos e tipos (e como Identificar) - Significados